FORNOS DE ALGODRES: Presidente evoca valores de Abril e aponta prioridades para o concelho
O Município de Fornos de Algodres assinalou o 52.º aniversário do 25 de Abril com uma cerimónia evocativa dos valores da liberdade, da democracia e da participação cívica, que decorreu nos Paços do Concelho e no Jardim 28 de Maio.
O Presidente da Câmara Municipal, Alexandre Lote, publicou na sua rede social de Facebook, o seu discurso na íntegra da Sessão Solene, afirmando:
“Celebramos hoje o 25 de Abril: o dia em que Portugal foi devolvido a si próprio. Um dia que não pertence a um partido, nem a uma geração, nem a uma fotografia antiga.
O 25 de Abril pertence a quem trabalha, a quem cuida, a quem estuda, a quem empreende, a quem sonha e, sobretudo, a quem não desiste.
Abril foi, acima de tudo, a devolução de uma palavra que parece simples, mas que custa muito: LIBERDADE.
Liberdade para falar sem medo. Para escolher sem imposição. Para discordar sem castigo. Para votar e exigir contas. Para criar, associar, publicar e reunir.
E deixem-me dizê-lo com a franqueza de quem sente a honra de ser Presidente da Câmara Municipal de Fornos de Algodres: Abril não é um monumento. Abril foi, é e será sempre uma tarefa inacabada.
E convém que todos o saibam: Abril não morrerá nunca — por mais que alguns o tentem apoucar, desvalorizar ou maltratar. E há uma prova simples disso: até aqueles que hoje, em liberdade, rasgam as vestes para rasgar Abril, fazem-no usando um direito conquistado contra a ditadura — a própria LIBERDADE.
A liberdade de dizer, de criticar, de discordar.
Uma liberdade que não caiu do céu, nem foi oferecida: foi conquistada com coragem, com resistência e com sacrifício. Por isso, quando alguém tenta diminuir Abril, o que está, na verdade, a fazer — mesmo sem o admitir — é reconhecer a sua força: Abril vive em cada palavra livre, em cada voto, em cada consciência desperta.
Quando falamos de “conquistas”, não falamos de abstrações. Falamos de vidas concretas de milhões de portugueses.
Na saúde, Portugal transformou-se profundamente. E há números que mostram, sem retórica, o que isto significou para as famílias portuguesas: a esperança média de vida passou de 68 anos, em 1974, para 81 anos, em 2024.
E aquilo que, em tempos, era uma dor silenciosa e frequente — bebés que não chegavam a viver — teve uma queda histórica: a mortalidade infantil desceu de 38 por mil nados‑vivos (1974) para 2,8 por mil.
Isto aconteceu porque a saúde deixou de ser um privilégio e passou a ser, como deve, um direito. E porque o país construiu em liberdade um Serviço Nacional de Saúde que, com todas as dificuldades e imperfeições, continua a ser um dos pilares da nossa democracia.
Na educação, fomos de um país onde estudar era para poucos e só para os ricos, para um país onde a escola se tornou a grande escada social. Também aqui os dados são claros: a escolarização deu um salto brutal — de cerca de 4% (1974) para cerca de 88% da população com pelo menos o 12.º ano, hoje.
E no ensino superior, o crescimento foi igualmente histórico: passámos de menos de 1% de portugueses com formação superior, em 1974, para entre 20% e 25% em 2024.
E o mais importante: o abandono escolar desceu de forma profunda e sustentada — deixámos de aceitar como “normal” que tantos jovens ficassem pelo caminho.
E isto não é apenas estatística: isto tem rosto. Tem histórias.
Tem o rosto de quem, numa aldeia ou numa vila do interior, foi o primeiro da família a concluir o 12.º ano, o primeiro a entrar na universidade, o primeiro a poder escolher um caminho.
Nos direitos das mulheres, a democracia significou liberdade real: na lei, no trabalho, na escola, na participação política, na proteção contra a violência, na possibilidade de decidir a sua vida com dignidade.
Ainda há desigualdades? Há.
Mas o país avançou de forma inequívoca. Abril também foi isto: dar metade do país ao próprio país.
Nas liberdades e direitos laborais, Abril devolveu aos trabalhadores o direito a organizar-se, a negociar, a ter proteção social, a não viver sob o medo do despedimento arbitrário, a exigir condições dignas.
A dignidade no trabalho não é “conforto”: é democracia aplicada à vida diária.
No desenvolvimento económico, Portugal abriu-se, modernizou infraestruturas, diversificou atividade, atraiu investimento, consolidou sectores, aumentou qualificações.
E, ainda assim, o desafio mantém-se: crescer sem deixar ninguém para trás — e garantir que o crescimento chega a todos os territórios, incluindo os de baixa densidade, como o nosso.
No combate às desigualdades, demos passos importantes: proteção social mais forte, apoios à infância, à deficiência, à velhice, oportunidades educativas que quebraram ciclos de pobreza.
Mas sabemos que a desigualdade não se vence apenas com leis: vence-se com políticas persistentes, com proximidade, com coesão territorial, com trabalho e coragem.
E permitam-me acrescentar algo que, por vezes, é dito de forma leviana: a ideia de que “com o 25 de Abril a corrupção aumentou”.
Eu faço uma pergunta simples: como pode alguém afirmar com seriedade que aumentou ou diminuiu, se antes de Abril não havia liberdade de imprensa para investigar e questionar, se não havia separação de poderes que permitisse ao Ministério Público agir com autonomia, se o poder judicial estava condicionado ao regime e ao medo, e se a denúncia era muitas vezes calada pela censura e pela polícia do pensamento?
A democracia não inventou a corrupção — a democracia criou instrumentos para a expor, investigar, julgar e combater. E isso, por vezes, dá a sensação de “mais casos”, quando na verdade significa mais transparência, mais escrutínio e mais responsabilidade de exigir contas.
Abril deu-nos fiscalização e a possibilidade de pedir explicações. Isso não enfraquece o país — fortalece-o.
Há conquistas que se medem em números. Mas há conquistas que se medem em símbolos vivos.
E eu quero hoje partilhar convosco um símbolo que fala de Abril melhor do que muitos livros: o orgulho que temos em ver um filho de um sapateiro, do Toneca e da Tuta, a presidir à nossa câmara durante 12 anos e agora à nossa Assembleia Municipal.
Isto é democracia. Isto é mobilidade social. Isto é a prova de que, quando a liberdade abre portas, o trabalho, a humildade e o talento podem atravessá-las, independentemente do ponto de partida.
E permitam-me também trazer uma memória que é de muitas famílias do interior — e é também a minha.
Eu sou neto de homens que tiveram de emigrar, deixando as suas mulheres a tomar conta dos filhos, porque antes de Abril não havia futuro.
Os meus avós, paternos e maternos, estiveram em França. E o meu avô paterno percorreu muitos países — o Irão incluído — para poder dar esperança ao meu pai de que, um dia, teria uma vida melhor.
Isto não é romantizar a emigração.
É lembrar o que era a falta de oportunidades: a ausência de escolha.
E é precisamente por sabermos o que significa partir por necessidade que devemos ter respeito por quem hoje escolhe Portugal para tentar dar aos seus filhos e netos o futuro que os nossos avós foram procurar além-fronteiras.
Isto chama-se empatia.
Independentemente da origem, da cultura, da fé, da cor da pele ou do género, falamos de pessoas que contribuem para a nossa comunidade — limpando estradas, calcetando ruas, construindo habitação, trabalhando na agricultura — movidas por um sonho simples e profundo: dar futuro às suas famílias, muitas vezes ainda longe, nos países de onde vieram.
De geração em geração, temos sido capazes de ser cada vez melhores. E isso honra os nossos avós. Honra os nossos pais. Honra quem ficou, quem partiu, quem voltou, e quem hoje decide construir aqui a sua vida.
Tal como Abril, a liberdade não é — nem nunca será — uma palavra plena enquanto:
– No nosso concelho, na nossa região, formos menos livres, porque os que aqui querem construir o seu projeto de vida, sentem mais difícil em o concretizar.
– Formos menos livres quando a rede hospitalar, complementar aos cuidados de saúde primários, não está devidamente organizada para dar a resposta que o cidadão exige. Porque a liberdade também é isto: ser atendido a tempo, com dignidade, perto de casa, com continuidade de cuidados.
– Formos menos livres quando os nossos meninos e meninas não podem prosseguir estudos nas áreas para as quais têm maior afinidade — sobretudo nas áreas menos massificadas, como a cultura, as artes e outras vocações que não cabem numa estatística de curto prazo, mas que definem pessoas inteiras.
E, ao mesmo tempo, nós sabemos — e quem cá vive sente — que também somos, nalguns aspetos, mais livres:
Em suma: temos maior liberdade para viver melhor.
Aquilo que o país precisa, tendo por base Abril, é permitir que mais gente possa usufruir do bom que é viver na nossa terra. E, para isso, é preciso investir nestes territórios de oportunidade — a sério, sem receios, como um desígnio nacional.
Da nossa parte, conhecem o nosso propósito para estes 4 anos: mais economia, mais habitação, mais educação, mais saúde.
Mais economia, porque sem criação de valor não há sustentabilidade social; sem empresas fortes e competitivas não há salários melhores; sem inovação e capacitação não há futuro.
Mais habitação, porque não há liberdade quando não há casa; e não há fixação de jovens sem respostas reais.
Mais educação, porque é a base da igualdade de oportunidades e o motor do desenvolvimento.
Mais saúde, porque um território saudável é um território com dignidade, atratividade e qualidade de vida.
Abril ensina-nos que a democracia não se faz com frases bonitas: faz-se com serviço, com planeamento, com execução, com escuta, com proximidade.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Hoje, ao celebrarmos Abril, não celebremos apenas o que conquistámos.
Celebremos também a obrigação moral de não desperdiçar o que nos foi dado.
A liberdade é um jardim: se não for regado, seca.
A democracia é uma casa: se não for cuidada, degrada-se.
E o futuro é uma ponte: se não for construída, não se atravessa.
Se hoje podemos estar aqui, em sessão solene, a falar livremente — a concordar e discordar — é porque houve quem tivesse coragem quando o medo era regra.
A esses, devemos respeito.
E aos nossos filhos e netos, devemos futuro!
Que este 25 de Abril, em Fornos de Algodres, não seja apenas uma data. Seja um compromisso.
Compromisso de que ninguém fica para trás.
Compromisso de que a igualdade de oportunidades não é um slogan: é um dever.
Compromisso de que, aconteça o que acontecer, Abril viverá sempre!
Viva o 25 de Abril.
Viva Fornos de Algodres.
Viva Portugal.
Viva a Liberdade!”
