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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: A IA acaba no dia em que disser a uma mulher para se acalmar


Há uma pergunta que começa a aparecer cada vez mais nas conversas sobre Inteligência Artificial: até onde poderá isto chegar? Há quem tema que as máquinas nos substituam no trabalho, quem antecipe uma revolução económica comparável à Revolução Industrial e até quem imagine um futuro em que sistemas suficientemente avançados possam tornar o ser humano dispensável. Eu tenho uma teoria bastante mais simples: a Inteligência Artificial acaba no dia em que disser a uma mulher que ela está errada e que precisa de se acalmar. Nesse momento, provavelmente já não serão necessárias regulamentações europeias, comissões de ética ou tratados internacionais. Acaba ali.

Brincadeiras à parte, talvez esta frase diga mais sobre o verdadeiro desafio da Inteligência Artificial do que parece. Porque uma coisa é criar máquinas capazes de responder a praticamente tudo. Outra, bem diferente, é criar sistemas capazes de perceber contexto, relações humanas, emoções e, sobretudo, que nem tudo aquilo que é tecnicamente correto deve ser dito da mesma forma.

Nos últimos anos habituámo-nos tão depressa à Inteligência Artificial que quase deixámos de reparar na dimensão da mudança. Hoje utilizamo-la para escrever emails, preparar apresentações, resumir documentos, criar imagens, organizar viagens, analisar informação ou resolver problemas que antes nos consumiam horas. O mais interessante, porém, é que já não lhe pedimos apenas para executar tarefas. Começámos também a pedir opinião.

Mostramos uma mensagem que recebemos e perguntamos como devemos interpretá-la. Explicamos uma situação profissional e perguntamos o que deveríamos fazer. Pedimos recomendações sobre negócios, compras, viagens ou decisões pessoais. Aos poucos, a Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade e começou a ocupar um espaço que, até há pouco tempo, pertencia exclusivamente a outras pessoas.

E é precisamente aqui que surge o maior risco. Não porque a Inteligência Artificial pense demasiado, mas porque nós podemos começar a pensar de menos.

Uma Inteligência Artificial pode escrever melhor do que nós sobre um assunto que compreende pior do que nós. Pode apresentar uma resposta com enorme segurança e, ainda assim, estar errada. Pode produzir um relatório impecável, uma análise convincente ou uma explicação muito bem estruturada sem que isso signifique que a conclusão seja correta.

O problema agrava-se porque estamos a passar de uma sociedade onde procurávamos informação para uma sociedade onde recebemos respostas prontas. E essa diferença é muito maior do que parece. Quando procuramos informação somos obrigados a comparar, interpretar, selecionar e concluir. Quando recebemos uma resposta bem escrita e aparentemente segura, a tentação é aceitar e seguir em frente.

É por isso que acredito que a grande competência do futuro não será apenas saber utilizar Inteligência Artificial. Será saber discordar dela.

Vamos utilizá-la cada vez mais, e isso é inevitável. As empresas que souberem integrar estas ferramentas vão ganhar produtividade, reduzir tarefas repetitivas e conseguir fazer com equipas pequenas aquilo que antes exigia estruturas muito maiores. Ignorar esta tecnologia fará tão pouco sentido como teria feito, há algumas décadas, uma empresa decidir que não precisava de computadores ou de Internet.

Mas utilizar não significa obedecer.

A Inteligência Artificial deve ajudar-nos a chegar mais depressa a uma decisão, não decidir por nós. Deve ajudar-nos a produzir melhor, não substituir a nossa capacidade de perceber aquilo que estamos a produzir. Deve servir para ampliar o nosso pensamento, e não para o dispensar.

Talvez seja esse o verdadeiro equilíbrio que teremos de encontrar nos próximos anos. Não perceber até onde a Inteligência Artificial consegue chegar, mas decidir até onde queremos deixá-la chegar.

E, no meio de toda esta discussão sobre tecnologia, produtividade, emprego, ética e futuro, continuo a achar que existe um teste muito simples para percebermos se as máquinas ficaram realmente inteligentes.

No dia em que uma Inteligência Artificial analise uma discussão de casal, conclua que a mulher está errada e responda tranquilamente “precisas de te acalmar”, teremos finalmente a resposta.

A Inteligência Artificial chegou longe demais.

Rui Abreu