OPINANDO: A Minoria que fala por todos
Se um partido governasse Portugal com 7% dos votos, estaríamos nas ruas. Com os sindicatos, chamamos a isso democracia laboral.
Em Portugal, apenas 7 em cada 100 trabalhadores do sector privado são sindicalizados. Sete. Uma minoria que, por razões históricas e por arquitetura institucional conveniente, continua a sentar-se à mesa como se representasse a totalidade da força de trabalho portuguesa. Ninguém questiona o mandato. Ninguém pede contas à representatividade. Aceita-se.
Façamos um exercício de imaginação simples. Suponhamos que nas próximas legislativas um partido vencia com 7% dos votos e, com essa legitimidade, exigia governar o país, negociar em nome de todos os portugueses, convocar paralisações nacionais e ditar as condições em que os restantes 93% trabalham e vivem. A indignação seria imediata e unânime. Seria uma aberração democrática.
No mercado de trabalho, chamamos a isso concertação social.
O problema não é a existência de sindicatos. Organizações que defendem trabalhadores têm um papel legítimo e necessário. O problema é a desproporção entre representatividade real e poder negocial exercido. O problema é um modelo que permite que uma estrutura com adesão residual fale em nome de quem nunca a mandatou, negoceie condições que afetam quem nunca votou nela, e convoque greves que paralisam quem nunca foi sequer consultado.
É um poder sem eleição.
Por outro lado, existe em Portugal uma tradição tão previsível que já é quase folclore sindical: a greve estrategicamente encostada ao feriado. Não é coincidência, não é acidente de agenda. É uma tática calculada para maximizar o impacto da perturbação com o mínimo de sacrifício real por parte de quem a convoca. O trabalhador perde um dia de salário, mas ganha uma ponte. O sindicato maximiza a visibilidade. O país paga a conta.
Esta mecânica revela algo que importa dizer em voz alta: há uma desonestidade de fundo nestas escolhas. Não é protesto, é otimização. Não é pressão legítima, é engenharia do incómodo.
O exemplo mais recente dispensa apresentações. Em plena negociação do pacote laboral, com as conversações entre parceiros sociais ainda abertas, um dos sindicatos já anunciou greve para 3 de Junho. Um dia antes do feriado de 4 de Junho.
O que isto diz sobre a boa-fé negocial é mais eloquente do que qualquer comunicado sindical.
Negociar com uma mão e convocar greve com a outra não é pressão legítima dentro de um processo negocial. É sinalizar que o processo em si é irrelevante. Que a conclusão já estava tomada antes de as reuniões começarem. Que a mesa de negociação é um cenário, não um mecanismo.
O que está verdadeiramente em causa não é se os trabalhadores merecem proteção, porque merecem. É se este modelo específico, com esta representatividade específica, com estas práticas específicas, serve genuinamente os trabalhadores portugueses ou serve principalmente as estruturas que dizem representá-los.
Sete em cada cem. O resto que se cale.
Rui Abreu
