Mais Beiras Informação

Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: A palavra morreu — e já ninguém acredita


Isócrates, 436 a.C. – 338 a.C. , um dos grandes mestres da retórica da Grécia Antiga, e conhecido como o pai da oratória, compreendeu algo que continua profundamente atual: uma cidade não se sustenta apenas pelas suas leis, pelas suas instituições ou pela força da sua economia. Sustenta-se também pela forma como fala, pela qualidade dos seus argumentos e pelo valor que atribui às palavras.

Deambulando pelas ruas do bairro de Plaka, e depois na Ágora, olhando para o que hoje se pratica em nome do agir político, foi-me impossível não viajar no tempo até ao pai da retórica. Basta olhar à nossa volta para perceber que é precisamente aí que reside uma das maiores fragilidades do nosso tempo.

Vivemos mergulhados num tsunami sem fim de mensagens. As notícias sucedem-se a ritmo vertiginoso, os influenciadores disputam segundos da nossa atenção, a política comunica cada vez mais através de slogans do que de ideias.

Nunca se falou tanto. Nunca foi tão difícil perceber quem merece ser ouvido. As redes sociais democratizaram a palavra, mas também democratizaram a manipulação, a imbecilidade e a estupidez. Hoje, qualquer pessoa pode tornar-se referência sem conhecimento, experiência ou sentido de responsabilidade. O número de seguidores vale mais do que a qualidade dos argumentos. O impacto mede-se em
visualizações; a verdade tornou-se um detalhe opcional. O problema não está apenas nos influenciadores. Está também numa comunicação social pressionada pela velocidade, que privilegia o impacto imediato em detrimento da profundidade. O espetáculo vence a explicação.

Na política, o cenário não é muito diferente. As palavras deixaram de ser compromisso para se tornarem marketing. A transparência cede lugar à ambiguidade calculada. Muitas declarações são construídas para parecerem verdadeiras sem o serem completamente.
Talvez seja esta a forma mais sofisticada de desonestidade: não mentir de forma explícita, mas organizar a linguagem de modo a esconder mais do que revela.

Quando isto se repete, instala-se um fenómeno perigoso: a erosão da confiança. Se tudo parece propaganda, acabamos por desconfiar de todos. A vítima deixa de ser apenas a verdade; passa a ser a própria possibilidade de diálogo. Sem confiança nas palavras, a democracia perde um dos seus pilares. Votar implica acreditar em programas e discutir implica confiar nos argumentos.

Isócrates defendia que a educação devia formar cidadãos capazes de pensar, argumentar e falar com responsabilidade. Não ensinava apenas a convencer; ensinava a convencer com justiça. Um bom orador não era quem manipulava melhor, mas quem colocava a sua capacidade de persuasão ao serviço do bem comum.

Talvez seja essa lição que mais falta faz hoje: distinguir entre persuasão e manipulação, entre visibilidade e credibilidade.

Porque uma sociedade começa a degradar-se muito antes de as suas instituições ruírem. Começa quando as palavras deixam de significar aquilo que dizem.

As leis podem manter-se. As eleições podem continuar a realizar-se. Mas se jáninguém acreditar nas palavras que circulam entre nós, aquilo que sustenta verdadeiramente uma comunidade começa, silenciosamente, a desfazer-se. Isócrates recorda-nos uma verdade incómoda: a qualidade de uma democracia mede-se também pela qualidade da sua linguagem. E talvez a saúde de uma sociedade se avalie por uma pergunta simples: ainda acreditamos nas palavras que ouvimos?

Carlos M. B. Geraldes PhD