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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: A Solidão Não Tem Idade: O Preço Invisível de Ser Jovem no Interior


Quando pensamos na solidão do interior, a imagem que surge é quase sempre a mesma: o idoso sentado à porta de casa, no largo da aldeia, a ver os carros passarem. É uma realidade dura e muito discutida. Mas existe outra solidão, mais silenciosa e menos visível, que afecta quem decidiu remar contra a maré do êxodo: a dos jovens que escolheram ficar.

Na Beira e em tantas outras regiões do interior, aplaudimos com pompa a fixação dos mais novos. Chamamos-lhes corajosos. Chamamos-lhes “o futuro”. Mas, terminados os discursos, raramente lhes perguntamos como se sobrevive ao silêncio quando a juventude pede movimento.

O mito do “ar puro” e o vazio da sexta-feira à noite

Vende-se a vida no interior como sinónimo de qualidade de vida: menos trânsito, custo mais baixo, ar puro. Tudo isso é verdade. Mas o problema dos jovens não é o ar que respiram às nove da manhã de segunda-feira. É o vazio que encontram às nove da noite de sexta.

A falta de oferta cultural e de lazer não é capricho de uma geração mimada. É infraestrutura básica de saúde mental. São nos cafés com música ao vivo, nos cineclubes, nas exposições ou nos pequenos concertos que as comunidades se encontram, que as ideias circulam e que se constroem laços. Sem isso, as nossas vilas arriscam-se a transformar-se em dormitórios com vista para a serra.

Quando não há espaços de convívio além do café central, criam-se arquipélagos de jovens isolados. Muitos fechados no quarto, agarrados ao ecrã. A ansiedade instala-se: a sensação esmagadora de que “a vida está a acontecer noutro lugar”.

As redes sociais amplificam este fosso. No bolso, uma montra digital mostra, em tempo real, a vibrante vida cultural de Lisboa, Porto ou Coimbra, enquanto a rua principal da vila adormece às oito da noite. O contraste gera frustração, apatia e, em muitos casos, depressão silenciosa.

Um emprego paga as contas, mas não alimenta o espírito

Os autarcas esforçam-se, e bem, para atrair empresas e criar postos de trabalho. Mas sejamos realistas: um ordenado paga a luz e a renda, mas não fixa ninguém a longo prazo se a vida depois do expediente for um deserto.

Precisamos de mudar o paradigma de investimento no interior. O cimento e o alcatrão já não bastam. É urgente criar políticas de juventude verdadeiras.

O que precisa de mudar?

– Apoio real à criação local: Financiar associações de jovens, bandas, coletivos artísticos e dar-lhes espaços (tantos estão fechados e degradados) para que sejam protagonistas da sua própria cultura.

– Programação contínua: Substituir os grandes eventos esporádicos e caros por uma agenda cultural modesta, mas regular, que dê vida aos fins de semana durante todo o ano, especialmente no inverno.

– Mobilidade: Melhorar o transporte intermunicipal noturno, para que os jovens possam aceder à oferta das cidades vizinhas sem arriscar a vida na estrada.

Os jovens que resistem e ficam são o maior património destas terras. São eles que mantêm as escolas abertas, o comércio vivo e a economia a funcionar. Não podemos exigir-lhes que sejam heróis estoicos todos os dias.

Uma terra sem cultura é uma terra sem alma. Se continuarmos a ignorar a solidão cultural de quem aqui permanece, o silêncio que hoje entristece tornar-se-á, amanhã, um vazio irreversível.

Ana Cruz