OPINANDO: A verdade desportiva não pode depender de exceções
O que está a acontecer no Campeonato de Sub-14 da Associação de Futebol da Guarda é, no mínimo, incompreensível. E, no máximo, inaceitável.
É verdade que o jogo em atraso já era conhecido e envolvia um dos potenciais campeões. Mas é precisamente aí que começa o problema. Nunca se devia ter permitido chegar à última jornada com um jogo por realizar que pudesse decidir o título distrital.
Ainda mais quando esse jogo em atraso corresponde à 2.ª jornada da 2.ª fase da competição. Ou seja, um encontro que ficou por disputar praticamente durante toda a fase decisiva do campeonato e que agora, já depois da última jornada realizada, pode acabar por definir o campeão distrital.
Um campeonato tem de ser decidido em igualdade de circunstâncias. Entrar para a última jornada com equipas com calendário diferente, e com pontos ainda por disputar fora do tempo competitivo comum, é abrir a porta à dúvida — e a dúvida, no desporto, mina a verdade desportiva.
Na última jornada, disputou-se aquele que foi assumido como o “jogo dos campeões”.
Frente a frente estava o S.C. Celoricense, segundo classificado, e a A.D.São Romão, líder do campeonato. O encontro terminou empatado 1-1, mantendo tudo na mesma:
1°-A.D.São Romão – 35 pontos
2°-S.C. Celoricense – 32 pontos
3°-ADRC Penaverdense – 29 pontos
O campeonato terminou. Houve uma última jornada. Houve um jogo decisivo. Houve um resultado dentro das quatro linhas.
Mas afinal… ainda não havia campeão.
Porque ficou por realizar um jogo em atraso entre o ADRC Penaverdense e o S.C. Celoricense.
E esse jogo pode agora decidir o Campeão Distrital… depois de terminada a competição.
Se o S.C. Celoricense vencer, é campeão.
Se empatar, o título é comemorado pela A.D.São Romão — equipa que, por sinal, já terminou o campeonato na última jornada.
E é aqui que surge a questão essencial: Isto é verdade desportiva?
Porque o problema já nem é apenas regulamentar. É um problema de princípios, de credibilidade e de respeito pela competição.
No futebol de formação, ainda mais. Estamos a falar de jovens atletas que vivem cada jogo de forma intensa, que festejam, sofrem e sonham ser campeões naquele momento. Adiar decisões destas é prolongar emoções, criar frustrações e deixar no ar a sensação de que aquilo que aconteceu dentro das quatro linhas afinal pode não ter sido suficiente.
Importa também dizer, com total clareza, que nada disto coloca em causa os clubes. O trabalho, a dedicação e a qualidade da formação desenvolvida por todos merecem reconhecimento e respeito.
Mas quem organiza tem uma responsabilidade superior: garantir que campeonatos desta importância terminem com todos os jogos realizados e em igualdade para todos os intervenientes.
Durante anos, evitou-se precisamente este tipo de situações. Existia o entendimento de que não fazia sentido disputar jogos decisivos depois do encerramento da competição. Hoje, essa lógica parece ter desaparecido — ou então passou a depender das circunstâncias e de quem decide.
E quando isso acontece, torna-se inevitável questionar: Ainda existem regras iguais para todos? Ou tudo depende apenas da interpretação de quem lidera o futebol distrital?
Porque quando um campeonato termina sem que todos os jogos decisivos estejam concluídos, o problema já não é o calendário.
É a credibilidade.
E a credibilidade perde-se quando os regulamentos deixam de parecer iguais para todos e passam a soar a exceções convenientes.
Paulo Menano
