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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: A Voz de Tersites – Quando o Povo Fala e o Poder Ri


Na Ilíada (Canto II, vv. 211–277), surge uma das figuras mais incómodas de toda a epopeia: Tersites. Soldado comum, sem nobreza nem prestígio, ousa criticar Agamémnon, acusando-o de ganância e de sacrificar os homens por interesses próprios. Diz, em essência, aquilo que muitos pensam, mas não dizem.

A resposta é violenta e simbólica: Ulisses intervém, agride-o com o cetro e reduz a sua intervenção ao ridículo. O episódio culmina com o riso coletivo dos soldados (vv. 270–277), que assistem à humilhação daquele que ousou quebrar a ordem estabelecida.

Este momento ecoa de forma perturbadora na política contemporânea. Em Portugal e no mundo, vozes críticas — muitas vezes vindas de fora dos círculos tradicionais de poder — levantam questões legítimas sobre desigualdade, corrupção ou falhas de governação. No entanto, tal como Tersites, são frequentemente desvalorizadas não pelo conteúdo, mas pela sua origem.

A lição é desconfortável: a verdade, quando dita sem estatuto, não é debatida — é ridicularizada. A Ilíada recorda-nos que a exclusão política não é um fenómeno moderno; é uma constante histórica.

Carlos M. B. Geraldes Ph.D.

Para quem queira aprofundar: Homero, Ilíada, Trad. Frederico Lourenço, Editor: Quetzal Editores, 2019