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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Abril teve Coragem, a Democracia que criou, não


Na Odisseia — Canto XI, versos 90 a 151 — Ulisses desce ao mundo dos mortos para consultar Tirésias. O vidente é cego. E é precisamente por isso que vê mais do que todos os vivos juntos.

Tirésias revela-lhe o caminho de regresso a Ítaca. Alerta-o para não tocar nos bois de Hélio, personificação do Sol na mitologia grega, um Titã filho de Hiperião e Teia. Prevê as perdas inevitáveis. Diz a verdade — toda a verdade — sem a suavizar, sem a empacotar em modo político, sem a dosear para não perturbar quem a ouve.

Ulisses ouve. Compreende. E mesmo assim, mais tarde, os seus homens tocam nos bois de Hélio. O destino cumpre-se. Não por falta de aviso. Por incapacidade — ou recusa — de agir sobre o que se sabe.

Mas é em Édipo Rei que Tirésias pronuncia a frase que atravessa vinte e cinco séculos e chega ao nosso presente com precisão cirúrgica.

Diz ao rei de Tebas, que tem olhos e não vê: “Tu és o assassino que procuras.”

Édipo tem todos os factos. Tem o poder. Tem os meios para investigar. Tem ao seu lado o homem que mais sabe — o vidente que nada deve ao poder e tudo deve à verdade. E mesmo assim recusa ver. Porque ver implicaria agir. E agir implicaria pagar um preço que nenhum homem de poder quer pagar voluntariamente.

A cegueira de Édipo não é física. É moral. É a cegueira de quem sabe — e decide não saber. De quem vê — e decide não ver. De quem compreende — e decide não compreender, porque compreender seria demasiado perturbador, demasiado custoso, demasiado incompatível com o lugar que ocupa e os privilégios que esse lugar garante. Esta é a cegueira mais grave. A que Tirésias condena. A que a tragédia grega pune — sempre, sem excepção, sem piedade

Vivemos rodeados de Tirésias modernos.

Chamam-se climatologistas, epidemiologistas, economistas, demógrafos, analistas de risco, filósofos políticos, pensadores independentes que escrevem na imprensa regional portuguesa e em blogues que o poder prefere não ler.

Todos dizem o mesmo — com linguagens diferentes, com dados diferentes, com urgências diferentes — mas com a mesma mensagem central: o caminho que seguimos leva onde não queremos ir.

As alterações climáticas não são uma previsão para o futuro. São uma realidade documentada, medida e visível em cada estação de incêndios, na Beira Baixa e na Beira Alta, nas colheitas destruídas pela seca ou pela inundação. A instabilidade económica não é um cenário hipotético: basta observar, aqui mesmo, os efeitos das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente. É a consequência matemática de décadas de decisões que privilegiaram o curto prazo sobre a sustentabilidade. A erosão democrática não é uma metáfora do senso comum ou académica. É o processo lento e visível pelo qual as instituições se esvaziam de substância enquanto mantêm a forma — como uma laranja espremida que continua a parecer laranja, mas já não tem sumo.

Sabemos tudo isto. Temos os dados. Temos os relatórios. Temos as análises. Temos os avisos. E fazemos — com honrosas excepções que confirmam a regra — essencialmente nada.

Em Portugal, o problema raramente é a falta de diagnóstico. É a distância descomunal entre o diagnóstico e a acção.

Temos uma cultura persistente e profunda de adiamento — aquilo a que poderíamos chamar, com algum rigor filosófico, a nobre tradição nacional de planear muito e concretizar pouco: a servidão voluntária do hábito de não executar e de desacreditar. Escuta-se muito. Tagarela-se com abundância olímpica, como quem evita decisões; debate-se a fartazana, com um aparato digno de riso — ou de vergonha. Produzem-se relatórios, estudos, recomendações e planos estratégicos com horizontes temporais que nenhum governante que os assina estará no cargo para honrar.

E decide-se pouco. E quando se decide, decide-se o mínimo indispensável para não ser acusado de não ter decidido — não o máximo necessário para resolver o que precisa de ser resolvido.

É a democracia como gestão do adiamento. Como administração do inevitável. Como arte de parecer que se age sem agir de facto.

O 25 de Abril foi um ato de coragem rara: humanos que sabiam o que queriam destruir e tiveram a determinação de o fazer. Sem relatórios. Sem adiamentos. Pagando o preço que as decisões verdadeiras sempre exigem.

Conheci um desses homens.

Era dezembro de 1979. O Colégio Nuno Álvares, em Tomar. Eu não passava de um miúdo interno do segundo ciclo — sexta classe —, um daqueles rapazes que cresceram ali dentro, que se formaram entre aquelas paredes antes de seguirem para a universidade e para a vida.

Naquela manhã, numa cerimónia de comemoração do CNA, cruzei-me com ele pela primeira vez. À minha volta, antigos alunos, ex-militares de abril, veteranos da guerra colonial — rostos marcados pelo tempo e pela história, reunidos naqueles corredores, pátio e refeitório que eu conhecia de cor. Foi assim que, sem saber bem o que aquilo significava, me cruzei com Salgueiro Maia — que naquele mesmo colégio havia estudado anos antes.

Há lugares que ficam para sempre. Em frente ao colégio ergue-se um monumento a todos os que tombaram em combate e estudaram— Uma cruz de ferro fincada na pedra — muda e firme como a memória dos que homenageia. Um silêncio que pesa, e que todos os anos recebe a romagem silenciosa dos antigos alunos. Na mesma linha, como guardião imóvel, a estátua do nosso Dom Nuno Álvares Pereira vela — como sempre velou, e a do Dr. Raul Lopes — um dos fundadores do colégio — recebe a luz da tarde na praceta com jardim que leva o seu nome.

São lugares que ainda hoje, no dia 1 de dezembro e no primeiro fim de semana de junho, recebem a visita e a homenagem de quem não deixou apagar a memória de um ideário. Um lugar sagrado — com o Convento de Cristo e as suas muralhas templárias no horizonte —, que pouco ou nada se consegue explicar a quem olha de fora, ou àqueles que por ali passaram apenas um ano, alguns meses, sem tempo de deixar raízes nem de deixar que o lugar entrasse neles.

Para nós, os que ficámos, foi diferente. Ficou tudo.

A impressão que ficou não foi a de uma figura histórica consciente da própria grandeza, mas a de um antigo aluno da casa que agiu porque era necessário agir — e seguiu em frente, sem mais.

A virtude prática de que falava Aristóteles — transformar o que se sabe no que se faz, sem hesitação nem vaidade. A negação viva de tudo o que este texto critica.

O que se seguiu ao 25 de Abril revelou a patologia inversa: sabia-se o que terminar, mas faltou coragem coletiva para decidir o que construir.

Cinquenta anos depois, os discursos repetem nunca mais. As decisões continuam a dizer amanhã. E é nesse amanhã que se acumulam todas as reformas que nunca chegam — não por falta de conhecimento, mas por ausência de vontade.

O cravo vermelho permanece como símbolo de uma urgência que insistimos em adiar. Uma democracia não se preserva celebrando a sua origem; preserva-se enfrentando o que é difícil, em vez do que é apenas aplaudível.

Salgueiro Maia sabia-o. Provou-o com um carro de combate na Praça do Comércio, numa manhã de Abril em que o futuro ainda estava por decidir.

Os falsos virtuosos — os moralistas de fachada que pregam a urgência nos discursos, mas não a praticam nas decisões que custam votos — são os herdeiros diretos de Édipo. Têm os olhos abertos. Não veem. Ou fingem que não veem. O que é, moralmente, a mesma coisa — e historicamente, um erro de maior magnitude, porque a ignorância pode ser desculpada, mas a recusa consciente de ver nunca o será.

Aristóteles, na Política — obra que permanece assombrosamente atual —, distinguia entre os regimes que governam para o bem comum e os que governam para o interesse dos que governam. Os primeiros são raros. Os segundos são a norma — com diferentes disfarces, diferentes retóricas e diferentes legitimações, mas com a mesma estrutura essencial: o poder ao serviço de si mesmo, usando o bem comum como vocabulário e não como projeto.

Tirésias não tem paciência para os disfarces. É cego — e por isso não vê as máscaras. Ouve apenas o que é real. Diz apenas o que é verdadeiro. E paga por isso o preço que sempre se paga por dizer a verdade ao poder: o desprezo, a marginalização, a acusação de pessimismo, de catastrofismo, de não compreender as complexidades da governação.

As complexidades da governação. Essa expressão notável que significa, na prática: há razões que não podes compreender para não fazermos o que sabemos que devemos fazer.

Tal como nas tragédias gregas, o destino não se cumpre por ausência de conhecimento. Cumpre-se por incapacidade — ou por recusa — de agir sobre o que se sabe.

A diferença entre a tragédia grega e a nossa é uma só, mas é fundamental: na tragédia grega, o destino era inevitável. Os deuses tinham decidido. O herói sofria não por culpa sua, mas pela vontade de forças que o transcendiam.

Na nossa tragédia — a do século XXI, a da democracia em declínio, do planeta que aquece, da desigualdade que cresce e da dignidade humana que se corrói — o destino não é inevitável. É uma escolha.

Feita todos os dias. Em cada eleição. Em cada reunião de câmara e de junta de freguesia. Em cada decisão de investimento. Em cada vez que se prefere o aplauso de amanhã à sustentabilidade de depois de amanhã.

Tirésias está entre nós. Fala. A questão não é se ouvimos. A questão é se — depois de ouvir — temos a coragem de ver. E de agir sobre o que vemos. Antes que o destino de abril — que neste caso não é dos deuses, mas é nosso, inteiramente nosso — se cumpra.

Bibliografia
Aristoteles — Política, 1.ª edição, trad. António Amaral e Carlos Gomes, Col. Veja Universidade / Ciências Sociais e Políticas, Lisboa, 1998.
Homero — Odisseia, 3.ª edição, trad. Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Lisboa, 2003.
Sófocles — Antígona, 8.ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2008.
– Rei Édipo, Edições 70, Coleção Clássicos Gregos e Latinos

Carlos M. B. Geraldes, Ph.D.