OPINANDO: AfD, o aviso que a Alemanha já não pode ignorar
No domingo, a Alemanha viu algo que nunca tinha visto desde 1945: um partido classificado pelos serviços secretos como comprovadamente de extrema-direita venceu, com 43,8% dos votos, uma eleição estadual. A AfD mais do que duplicou o seu resultado de 2021 na Saxónia-Anhalt, enquanto a CDU, que geria o estado desde a reunificação, se reduziu a 17,2% e perdeu todos os círculos eleitorais que ainda tinha. Perante números destes, chamar-lhe apenas “protesto” já não chega.
É tentador explicar tudo pelo descontentamento do leste alemão, essa região que se sente, há décadas, esquecida por Berlim. E há verdade nisso: a participação subiu para 77,8%, puxada em parte por eleitores que normalmente nem votam. Mas essa explicação, por si só, fica incompleta. A análise da Tagesschau lembra algo incómodo: a AfD não convence apenas pelo cansaço dos outros partidos, convence também pelo conteúdo do que propõe. Ignorar essa segunda parte é subestimar o adversário, e subestimá-lo tem sido, precisamente, o erro recorrente dos partidos tradicionais.
Ainda assim, seria igualmente errado tratar este resultado como um cheque em branco. O dirigente da AfD Sebastian Münzenmaier falou de “mandato claro para governar“. Convém, porém, recordar a aritmética: 43,8% não é maioria absoluta, e formar uma coligação alternativa para impedir que a extrema-direita governe não é traição à democracia, é a própria democracia a funcionar como foi desenhada. O verdadeiro problema não está no mecanismo, está em saber se os partidos tradicionais ainda têm energia e credibilidade para o usar bem.
A este argumento político soma-se um travão jurídico que poucos comentadores mencionam com números concretos. Uma análise do Verfassungsblog, publicada meses antes da eleição, concluiu que 18 das 31 medidas migratórias que a AfD queria implementar na Saxónia-Anhalt seriam, na prática, ilegais à luz da Constituição alemã. Não é um detalhe técnico menor. É a prova de que vencer eleições e poder governar sem limites são coisas diferentes, e de que as instituições, mesmo sob pressão, continuam a impor limites.
Enquanto isto se discutia em Magdeburgo, o eco internacional já não deixava dúvidas sobre a escala do acontecimento. Donald Trump partilhou a projeção da vitória no Truth Social; o enviado russo Kirill Dmitriev falou de uma “vitória histórica para a AfD pragmática“. Quando o resultado de um Land alemão de 2,2 milhões de habitantes se torna notícia em Moscovo e Washington, é sinal de que a Saxónia-Anhalt deixou de ser apenas um assunto regional.
Resta, por isso, a pergunta que verdadeiramente interessa: foi este um pico isolado, fruto de circunstâncias locais, ou o primeiro sinal sério de uma mudança estrutural na Alemanha? A resposta começa a desenhar-se a 20 de setembro, quando Berlim e Mecalemburgo-Pomerânia Ocidental também vão às urnas. Até lá, vale a pena resistir a duas tentações simétricas: fingir que nada mudou, ou aceitar que já tudo está decidido. Nenhuma das duas é verdadeira. A muralha democrática alemã ainda aguenta, mas já não aguenta sem esforço, e isso, por si só, já é notícia.
Hugo Andrade
Fontes de informação consultadas:
BBC: bbc.com/news/articles/cy4zejgz3z9o
Euractiv: euractiv.com/news/far-right-wins-big-in-eastern-german-state-election
SWR: swr.de/swraktuell/rheinland-pfalz/reaktionen-landtagswahl-sachsen-anhaltafd-gewinnt-100.html
Tagesschau: tagesschau.de/inland/innenpolitik/analyse-landtagswahl-sachsen-anhalt100.html
Verfassungsblog: verfassungsblog.de/afd-migration-parteitag

