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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Agri Deserti – O Vazio dos Discursos que (Des)Governam o Poder Local


Os debates autárquicos parecem feitos à medida do universo mental da maioria dos candidatos: são “cantigas do eu é que vos safo”, nas quais onde cada um surge como o “salvador do concelho ou da freguesia” ao anunciar como grandes feitos aquilo que deveria ser apenas normal — limpar ruas, arranjar jardins, tapar buracos, colocar alcatrão numa estrada que deveria ser corrigida, ou outras miudezas que nem mereceriam palco. É como se todo o fulgor da vida local estivesse concentrado nestas mesas redondas, quando na verdade não passam de encenações de glória de papelão. Ali, mérito, honestidade, transparência, reconhecimento e aptidão não são valores, mas refrões gastos, repetidos até à náusea para encobrir a banalidade e a preguiça de um discurso político em decadência. No fundo, já nem se pode dizer que os eleitores são “apunhalados pelas costas”: a lata é tanta que o fazem de frente, de lado, por cima e por baixo — sem pudor nem disfarce. O resultado é sempre o mesmo: um território transformado em verdadeiros agri deserti (expressão latina usada na Antiguidade para designar campos abandonados, terras negligenciadas e em decadência).

Os candidatos vivem numa ilusão autoinduzida, celebrando vitórias de nada em campos de deserto: um mundo árido, sem ideias, que exala um odor a implosão económica. Obras prometidas, investimentos anunciados, mas sempre envoltos no vazio estruturante. O debate torna-se um agri deserti — campos desertos de palavras ocas, onde reina a dependência mental e a incapacidade de ler a mudança, sobretudo num território que enfrenta transformações profundas com o aumento das migrações.

Este agri deserti é o retrato de terras que já não produzem nem o suficiente para justificar impostos, mas que alimentam discursos de grandeza. Os candidatos competem por nada, em modo colapso de uma vida campestre que se esvai, agarrados à imagem romântica da província. Apregoam-se maravilhas, cada um com a sua panaceia, mas as promessas soam como a tentativa desesperada de colar os cacos de uma porcelana partida.

A verdade é dura: a região não é potência económica, antes um recanto pobre e esquecido, deficitário, dividido politicamente e marcado pela estagnação. Ainda assim, nos palanques, fala-se como se daqui pudesse emergir o centro do mundo. Falta visão, falta coragem, falta inteligência política. Desde os tempos da administração romana que não se sente uma verdadeira transformação estrutural. Falta quem crie prosperidade, sobra quem repita o refrão do “vai melhorar”.

No final, só resta invocar a União Europeia, como quem pede um milagre à santa padroeira. Talvez Santa Catarina de Siena possa fazer o que nenhum candidato ousa sequer imaginar: transformar discursos vazios em futuro. Até lá, continuamos a viver num abençoado agri deserti.

Carlos M. B. Geraldes, PhD