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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Antes dos clubes e dos campeões, existe a escola


O desporto escolar como base da saúde, da educação e do futuro das comunidades.

No artigo anterior refletimos sobre o papel do futebol de formação na educação dos jovens, na transmissão de valores e na importância que os clubes têm para muitas comunidades, sobretudo no interior do país. Mas há uma pergunta que importa fazer antes de qualquer outra: onde começa verdadeiramente a formação desportiva? A resposta deveria ser simples. Começa na escola. Ou, pelo menos, é aí que deveria começar.

Mas há uma realidade que não podemos esquecer: antes do futebol de formação deveria existir sempre o desporto escolar.
É na escola que tudo começa. Ou, pelo menos, é aí que deveria começar.

O desporto escolar não é apenas uma atividade complementar do sistema educativo. É, ou deveria ser, um dos pilares fundamentais da formação das crianças e dos jovens. Tal como aprendem a ler, a escrever ou a compreender o mundo que os rodeia, os alunos deveriam crescer também com uma verdadeira educação para o movimento, para a saúde e para o equilíbrio físico e mental.
Durante muito tempo, essa era precisamente a ideia.

O desporto escolar era visto como uma ferramenta essencial para promover hábitos de vida saudáveis, incentivar a prática regular de atividade física e despertar o interesse pelas diferentes modalidades. Era um espaço de descoberta, onde cada criança podia experimentar, brincar, correr, saltar e jogar.
Era um espaço onde o desporto ainda era aquilo que deve ser na infância: um lugar de alegria e liberdade.

Infelizmente, ao longo dos anos, esse projeto foi sendo enfraquecido. Entre reformas educativas, prioridades mal definidas e alguma falta de visão estratégica, o desporto escolar acabou por perder parte da importância que deveria ter dentro do sistema educativo.
E essa perda não é pequena.
Porque o desporto escolar não serve apenas para formar atletas.
Serve, sobretudo, para formar pessoas mais saudáveis, mais equilibradas e mais conscientes da importância do movimento na vida de cada um.

Num tempo em que o sedentarismo cresce de forma preocupante entre os mais jovens, em que os ecrãs ocupam cada vez mais espaço no dia a dia e em que os problemas de saúde associados à falta de atividade física começam a surgir cada vez mais cedo, a escola deveria ser o primeiro lugar onde se combate essa realidade.

O desporto ensina muito mais do que técnicas ou regras de jogo.
• Ensina disciplina.
• Ensina respeito.
• Ensina cooperação.
• Ensina resiliência.
Ensina, sobretudo, algo essencial: a cuidar de nós próprios.

Uma criança que cresce habituada a praticar atividade física aprende mais cedo a importância de uma alimentação equilibrada, do descanso, do bem-estar físico e da saúde mental. Aprende que o corpo não é apenas algo que nos acompanha, é algo que devemos cuidar e respeitar.
São aprendizagens que não ficam no campo ou no pavilhão da escola.
Acompanham-nos pela vida fora.
Por isso, faria todo o sentido que a prática desportiva estivesse verdadeiramente integrada no percurso educativo desde os primeiros anos de vida. Do pré-escolar ao ensino universitário, o desporto deveria ser incentivado, valorizado e acessível a todos.
Não como uma atividade ocasional.
Mas como uma parte natural da formação de qualquer jovem.

Quando o desporto escolar funciona bem, cria também uma ligação natural ao movimento associativo e aos clubes locais. Muitas vezes é na escola que um aluno descobre a sua paixão por uma modalidade e decide continuar esse percurso num clube.
Nesse sentido, o desporto escolar e o desporto federado não são mundos separados. São etapas de um mesmo caminho.
Primeiro aprende-se a gostar de jogar.
Depois, quem quiser, poderá aprofundar esse gosto no contexto competitivo.
Mas mesmo aqueles que nunca irão competir continuarão a beneficiar de tudo aquilo que o desporto oferece.
Porque o objetivo principal nunca foi produzir campeões.
O verdadeiro objetivo é formar cidadãos ativos, saudáveis e preparados para a vida.

Num país que enfrenta desafios evidentes ao nível da saúde pública, do envelhecimento da população e da qualidade de vida das gerações futuras, ignorar o papel do desporto escolar seria um erro difícil de compreender.
Investir no desporto escolar não é apenas investir no desporto.
• É investir na saúde.
• É investir na educação.
• É investir no futuro.

Porque cada criança que descobre cedo o prazer de correr, saltar e jogar leva consigo esse hábito para a vida adulta.
E uma sociedade que se move mais é, inevitavelmente, uma sociedade que vive melhor.
Talvez esteja na altura de voltarmos a olhar para o desporto escolar com a importância que ele merece.
Porque antes dos clubes, antes das academias e antes das competições federadas, há algo muito mais simples e muito mais essencial.
• Há um recreio.
• Há uma bola.
• Há crianças a jogar.

E é ali, naquele momento simples e aparentemente banal, que nasce o verdadeiro espírito do desporto.
Porque, no fundo, não é no estádio que tudo começa.
É na escola.

Fernando Mendes

CEO – Globall Football