OPINANDO: Atravessar a Morte — O que a Páscoa ainda tem para nos dizer
“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá.”
João 11, 25
Houve um tempo em que a morte não era um escândalo silencioso, nem um tema varrido para os bastidores da vida. Era, antes, um elemento estruturante do pensamento humano — algo que se compreendia, se integrava e, de certo modo, se aceitava com solenidade. O mundo antigo, com todas as suas limitações, sabia dar forma à morte. E talvez seja precisamente essa capacidade que hoje nos falta com mais urgência.
Em Hesíodo, a morte inscreve-se na própria ordem do cosmos. Não é um acidente nem uma aberração — é consequência natural de um universo regido por forças que ultrapassam o homem. Aqui, a morte não é absurda: é parte de uma harmonia maior, ainda que severa e implacável.
Com Homero, ganha contornos mais sombrios. No Hades, os mortos não desaparecem: subsistem numa existência diminuída, quase espectral. Não há consolo pleno, mas há uma narrativa. Morrer é passar a outro estado — menos pleno, porventura mais triste, mas ainda assim compreensível dentro da lógica do mundo.
Platão eleva a reflexão a outro plano. A morte torna-se problema filosófico: será libertação da alma? Passagem para uma realidade superior? Para ele, pensar a morte é condição para viver bem. A filosofia nasce, em parte, desse exercício de antecipação e de confronto honesto com o fim.
Epicuro propõe uma solução mais radical: eliminar o medo. Para ele, a morte não deve preocupar-nos, pois quando ela chega, já não estamos cá para a sentir. É uma tentativa lúcida — e, a seu modo, corajosa — de libertar o homem da angústia existencial, retirando à morte o seu peso emocional.
Roma oferece ainda outra resposta: a memória. Viver é permanecer na recordação dos outros, nos feitos, no nome gravado na pedra ou na história. A morte não é o fim absoluto se houver continuidade na memória coletiva. É uma forma de eternidade construída não no além, mas entre os vivos — frágil, mas humana.
E então surge Santo Agostinho — e tudo muda de figura. A morte deixa de ser apenas fenómeno natural ou dilema filosófico para se tornar momento decisivo na história da salvação. Ganha um peso moral absoluto: é o limiar entre a perdição e a eternidade. O sentido da vida reorganiza-se inteiramente à luz desse fim.
Mas é no coração do cristianismo, celebrado em plenitude na Páscoa, que a morte perde a última palavra. A cruz não é ponto final — é passagem. A morte, longe de ser apenas fim ou castigo, torna-se condição de possibilidade para algo radicalmente maior: a ressurreição.
A figura de Jesus Cristo introduz uma rutura decisiva na história do pensamento humano. A morte é vencida por dentro. Não negada, não contornada, mas atravessada até ao fundo. A ressurreição não elimina o drama — dá-lhe sentido. E essa diferença é tudo.
É aqui que a pergunta se torna verdadeiramente incómoda: o que fizemos nós desta herança?
Hoje, a morte não desapareceu — mas foi esvaziada de significado. Vivemos como se ela fosse um erro técnico, um acidente a adiar, um tema impróprio para a mesa, mas adequado para a necrologia de um jornal e para a afixar no espaço público da freguesia e acender umas luzes na internet. Perdemos o enquadramento simbólico, filosófico e espiritual que permitia enfrentá-la com alguma dignidade. E, ao fazê-lo, perdemos também profundidade na própria vida.
Porque quando já não sabemos o que significa que algo termine, deixamos igualmente de compreender o que significa começar, escolher, amar, sacrificar. A banalização da morte é, no fundo, a banalização da existência humana.
A Páscoa recorda-nos, ano após ano, algo que a falsa modernice mental parece ter sistematicamente esquecido: não há vida plena sem a aceitação do fim. E não há verdadeiro renascimento sem atravessar a morte — seja ela literal, simbólica ou interior.
Talvez não precisemos de regressar às respostas antigas. Mas precisamos, com alguma urgência, de recuperar a coragem de colocar as grandes perguntas. Devolver à morte o seu lugar não é um exercício mórbido — é um ato de lucidez e de maturidade humana. Porque só quem aceita o limite pode genuinamente aspirar ao infinito.
A todos os leitores do Mais Beiras, votos de uma Santa e Feliz Páscoa — que, entre a morte e a vida, saibamos reencontrar o sentido que nos faz humanos.
Carlos M.B. Geraldes, Ph.D.
