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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Boas Notas, Poucas Perguntas – Que Escola Estamos a Construir?


Na antiga ágora ateniense, séc. V a.C., Sócrates, o grego, ensinava os jovens a questionar. A escola de hoje ensina-os, demasiadas vezes, a encontrar a resposta supostamente certa. Mas, num mundo dominado pela inteligência artificial, o futuro talvez pertença a quem souber fazer as perguntas certas. 

Há uma pergunta que deveríamos fazer com mais frequência quando falamos de educação: para que mundo estamos a preparar os nossos jovens?

Vivemos num tempo em que a inteligência artificial escreve textos, traduz línguas, analisa informação e responde, em segundos, a perguntas que antes exigiam horas de pesquisa, autorizações e deslocações. As profissões estão a mudar, algumas desaparecerão, e muitas das que os nossos estudantes exercerão ainda nem existem.

E, o mais chato, continuamos a ensinar como se o futuro fosse previsível: o professor explica, o aluno ouve, o manual apresenta a matéria, a ficha pergunta, o aluno responde e a classificação determina o sucesso. Boas notas, poucas perguntas e, socialmente, logo muita sabedoria. Será que isto chega, ou será uma praga que ameaça engolir a Escola?

# O problema não está nos professores

Pelo contrário, muitos procuram diariamente fazer uma escola diferente, mais próxima dos alunos e mais adaptada aos tempos, apesar de programas extensos, burocracias e exigências administrativas que pouco têm a ver com ensinar.

O problema é mais profundo: é o próprio modelo escolar, ainda preso a uma lógica construída para um mundo em que o conhecimento era escasso e as mudanças lentas. Hoje é o contrário, há informação em excesso e mudança permanente. Por isso, a escola já não pode limitar-se a ensinar os alunos a encontrar informação. Tem de lhes ensinar a avaliá-la e a impor a autoexigência que muitas famílias já não conseguem transmitir.

Não basta saber pesquisar: é preciso saber distinguir o verdadeiro do falso. Não basta ter opinião e grunhir: é preciso saber argumentar. Não basta ter acesso à inteligência artificial: é preciso saber quando desconfiar dela. Não basta responder: é preciso saber perguntar.

# Uma escola pensada para a fábrica

Vale a pena perguntar, sem ilusões, porque é que a escola tem esta forma e não outra. A generalização da escola de massas não nasceu de um desejo filosófico de formar mentes livres e sábias. Nasceu, sobretudo a partir do século XIX, associada à necessidade das sociedades industriais de disciplinar populações inteiras, ensinar horários, hierarquias, obediência e um conjunto mínimo de competências úteis à fábrica e à administração. Sinos que tocam, filas, turnos, sentar e calar até ser a vez de falar, isto é, a arquitetura da escola tem mais semelhanças com a arquitetura da fábrica do que gostaríamos de admitir.

Isto não significa que a escola nunca tenha servido para pensar. Significa que o seu desenho institucional foi, na origem, pensado sobretudo para produzir mão de obra disciplinada e minimamente instruída, não cidadãos socráticos. E um sistema construído com esse objetivo tende, ainda hoje, a premiar obediência, repetição e cumprimento de prazos mais do que autonomia intelectual. Se assim é, talvez não devêssemos estranhar que continue a dar boas notas a quem sabe responder, e poucas oportunidades a quem insiste em perguntar.

# Sócrates, o grego, teria boas notas?

Há cerca de 2.500 anos, Sócrates fazia algo que hoje causaria desconforto numa sala de aula: fazia perguntas a sério. Não entregava respostas prontas — ensinava a pensar.

Se entrasse hoje numa aula, provavelmente interromperia, questionaria o professor e recusaria decorar uma resposta só porque vinha no manual. E talvez, no sistema atual, nem sempre obtivesse a melhor nota. Esta pequena provocação devia fazer-nos pensar: estamos a avaliar aquilo que realmente queremos que os jovens aprendam?

Aristóteles lembrou-nos que educar não é apenas acumular conhecimentos, envolve carácter, capacidade de escolher e de viver em comunidade. E aqui está outra fragilidade da escola: podemos formar alunos excelentes nos exames e cidadãos frágeis perante a realidade, capazes de repetir fórmulas mas pouco preparados para a frustração, a diferença, a dúvida ou o conflito.

# A inteligência artificial acelerou o problema, não o criou

Durante décadas dissemos aos alunos: “aprende isto porque um dia vais precisar.” Hoje, uma máquina fornece informação sobre quase tudo em segundos. Isso não desvaloriza o conhecimento, pelo contrário, torna mais urgente o pensamento crítico. Uma máquina pode produzir uma resposta, mas quem verifica se está correta? Pode escrever um texto, mas quem decide se tem algo de verdadeiro ou relevante?

É aqui que a escola encontra a sua maior missão: não competir com a máquina naquilo que ela faz melhor, mas ensinar aquilo que continua a exigir juízo humano. O professor não perdeu importância — mudou de importância. Já não precisa de ser apenas quem transmite informação, mas quem ajuda o aluno a pensar sobre ela, isto é, a desconfiar, a comparar, a argumentar, a ouvir quem discorda, a reconhecer um erro e a mudar de opinião quando os argumentos mudam. Isto exige também nova formação e maior autonomia para os professores experimentarem metodologias diferentes.

# Menos matéria, mais pensamento?

Continuamos a medir o sucesso escolar pela quantidade de conteúdos transmitidos. Mas dar matéria será o mesmo que ensinar? Um aluno pode decorar vinte conceitos e esquecer dezanove depois do teste, obter uma excelente nota e, perante um problema novo, não saber por onde começar. Talvez uma boa escola não seja a que coloca mais informação na cabeça de um jovem, mas a que lhe dá ferramentas para continuar a aprender quando já não tiver um professor à sua frente.

# A responsabilidade que também é das famílias

Nada disto dispensa a responsabilidade das famílias, e seria desonesto fingir que a escola pode, sozinha, formar leitores e pensadores. Há exigências que não pedem reforma nenhuma do Estado, apenas vontade: a obrigatoriedade de uma quantidade mínima de leitura ao longo do ano, verificada não por um teste de escolha múltipla, mas por exposição oral ao professor, de forma a saber-se, sem margem para dúvida, se o aluno leu ou se apenas leu o resumo. Dissertações no final de cada ano letivo, que obriguem a organizar ideias próprias em vez de reproduzir apontamentos.

O problema é que este modelo de exigência, sabemo-lo bem, existe hoje sobretudo no bom ensino particular europeu. É lá que a leitura orientada, o acompanhamento próximo e a exigência de argumentação sobrevivem com alguma normalidade. O ensino vulgar, o do “vulgo”, que serve a esmagadora maioria dos jovens portugueses, raramente está preparado, em meios e em tempo, para exigir isto a sério. E aqui reencontramos o argumento anterior: um sistema pensado para produzir mão de obra em série não tem, na sua arquitetura original, espaço para tratar a leitura e o pensamento próprio como não negociáveis. Trata-os como extra, como luxo de quem pode pagar por eles.

# Que escola queremos?

Queremos alunos que saibam responder em modo emburrecido ou jovens que saibam pensar? Boas classificações ou boas decisões? Não se trata de escolher entre conhecimento e competências: precisamos dos dois. Sem conhecimento não há pensamento crítico, mas conhecimento sem capacidade de pensar transforma-se em mera acumulação de informação.

A escola não precisa de abandonar os livros, a História, a Matemática ou a Filosofia — esta última, aliás, parece ser cada vez mais o saber que ajuda a definir os limites éticos e o verdadeiro significado do pensamento das máquinas, tanto que as empresas de IA já procuram licenciados em Filosofia com bagagem efetiva.

Precisa é de lhes devolver uma finalidade: que os alunos percebam por que aprendem o que aprendem, que relacionem disciplinas, debatam em vez de repetir lugares-comuns, usem a tecnologia mas também a questionem, e descubram que errar, recordemos Cícero, nem sempre é fracassar, às vezes é o primeiro passo para compreender.

Não precisamos de uma escola que produza jovens que sabem tudo e nada. Precisamos de uma escola que prepare jovens suficientemente inteligentes para perceberem o que não sabem, suficientemente curiosos para quererem aprender e suficientemente livres para pensarem pela sua própria cabeça.

Porque o futuro não será ganho por quem tiver mais respostas, mas por quem souber formular as melhores perguntas. E talvez a pergunta mais importante que podemos fazer hoje não seja “que notas têm os nossos alunos?”, mas outra, bem mais incómoda: “depois de tantos anos na escola, aprenderam realmente a pensar?”

Se a resposta for negativa, o problema não está apenas nos alunos. Talvez esteja no Estado que desenha o sistema, na escola que o cumpre e nas famílias que lhe entregam os filhos sem exigir mais. 

Carlos M.B. Geraldes PhD