OPINANDO: Carta Aberta a Ricardo Araújo Pereira
Amigo Ricardo,
Antes de mais, deixo claro: sou admirador do teu trabalho. A sério… Durante meia hora por semana, consegues assumir o papel do médico de família que não temos… Aqueles momentos são terapêuticos. Este domingo, dia 17 de maio, não foi exceção. O circo entrou no estúdio e tu, como sempre, trataste de o pôr a funcionar melhor do que na vida real.
Ri-me, claro. Ri-me do cruzamento de factos, ri-me da edição, ri-me até de mim próprio, o que, convenhamos, é sempre saudável. Num instante, vi-me no meio do espetáculo sem dar por isso. Fui eu o autor da declaração na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto sobre causas que estão na origem dos episódios de violência sobre os árbitros. Quase me senti um anjo. Escapei, por sorte, a uma “crise de acne”. Mas centremo-nos no essencial: a relação que estabeleci entre a subida dos combustíveis w as agressões aos árbitros. Disse o que disse de forma consciente, com números que não são propriamente matéria-prima para stand-up, mas pronto, vivemos tempos em que até a meteorologia dá para sketch.
Na última década, tivemos 400 agressões a árbitros. Quarenta por ano. Uma por semana. É quase um campeonato paralelo, mas sem VAR. E há uma relação direta entre episódios mediáticos e violência nos escalões inferiores. Aliás, talvez não saibas, mas no mês seguinte à invasão da Ucrânia 10 árbitros foram agredidos. E quando rebentou o conflito no Médio Oriente, voltaram a agredir mais uns quantos. Só estes dois momentos representam 25% da média anual. São estes números que fizeram rir o país no domingo, 17 de maio.
Também nos rimos do deputado que “alegadamente” agrediu um árbitro. Alegadamente, claro, porque não há queixa. Só uma notícia de jornal. Provavelmente aconteceu e foi tratada como tantas outras… o jovem, depois de agredido, deve ter sido insultado como de costume, com aquele clássico português: “deixa lá, não vale a pena, não vai dar em nada”. E não dá mesmo. Muitas agressões a árbitros acabam punidas com 20 euros ou 15 dias de suspensão. Este valor não deve dar para pagar um dia numa escola privada como aquela onde tens ou tiveste as tuas filhas. Sabias que grande parte dos árbitros agredidos tem a mesma idade delas?
Entretanto, um árbitro de 20 anos que suspende um jogo de iniciados porque não tem condições de segurança pode ser castigado com três meses de suspensão. Isto pode ocorrer em jogos realizados sem a presença das forças de segurança. É o equivalente desportivo a seres assaltado e ainda pagares o jantar ao ladrão.
Mas pronto, show must go on. A vida continua, o circo continua, e nós continuamos a rir. Afinal, como diz Desmond Morris, o árbitro é sempre visto como a figura de autoridade externa que ameaça a tribo. Logo, insultá-lo ou agredi-lo é quase um ritual antropológico.
E enquanto nos rimos, os agressores vão passando. Alguns chegam a cargos importantes, outros passeiam pelos corredores das instituições desportivas como se nada fosse.
E no fim, claro, a culpa é, como sempre, do árbitro.
PS.: Ricardo, continua a fazer humor, enquanto nós continuamos a fazer contas… e o país continua a fazer de conta.
Sérgio Mendes
