OPINANDO: Cartão Branco – a prenda de Natal do professor Gonçalves
Dezembro é mês de nostalgia e de agradecimento. As luzes nas ruas parecem acender memórias e, por um instante, tudo o que parece pequeno ganha a dimensão devida.
Foi nesse espírito que a equipa do NAFA, liderada por Hélio Tavares, decidiu distinguir um homem cuja vida é feita de persistência discreta: José Gonçalves, que para os amigos é José Manuel Ferro.
Nasceu numa freguesia perdida entre Fundão, Castelo Branco, IdanhaaNova e Penamacor, um lugar onde as oportunidades escasseiam. Na primeira metade da década de 1980 decidiu tirar um curso de árbitro. O seu comprometimento foi total. Com trabalho, chegou aos quadros nacionais. Não foi um trajeto fácil. A arbitragem albicastrense era, na época, praticamente desconhecida a nível nacional. Resistiu e, em meados da década de 1990, tornouse observador de árbitros da I divisão. Aí permaneceu durante cerca de uma década e meia. Esses anos não foram apenas de presença: foram de construção de saber e de autoridade moral.
Ao longo desse tempo, José Gonçalves despertou a paixão pela arbitragem em centenas de jovens. Não se limitou a decorar e a replicar as Leis de Jogo… transmitiu com a clareza e a profundidade de quem a vive e conhece a modalidade nas suas múltiplas facetas. Alguns dos que beberam nessa fonte chegaram à primeira divisão. Que testemunho eloquente da sua capacidade formativa. Ensinar, no seu caso, foi também semear disciplina, ética e gosto pelo detalhe.
No momento em que foi homenageado, foi fiel a si próprio. Em vez de se colocar em bicos de pés, agradeceu. Lembrou quem o acompanhou na caminhada, em especial Manuel Nabais e Manuel Pires. Esse gesto simples, reconhecer os outros, que diz mais sobre grandeza do que qualquer tribuna. É desta fibra, feita de trabalho, lealdade e gratidão, que nascem os grandes homens.
Há algo de profundamente natalício nesta história: o reconhecimento público que nasce do silêncio do trabalho diário. Hélio Tavares e a equipa do NAFA fizeram mais do que entregar um prémio; lembraramnos que os sonhos do Homem se constroem com mãos anónimas, com professores que não procuram holofotes e com amigos que seguram o caminho. Em dezembro, quando as contas do ano se fazem e as memórias se alinham, é justo celebrar quem transformou um sonho em legado.
Com a simplicidade dos gestos e a firmeza das escolhas, José Gonçalves mostra que a verdadeira distinção não é a que se proclama nas manchetes, mas a que se reconhece à mesa, entre quem partilha o mesmo ofício e a mesma paixão.
Sérgio Mendes
