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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Ceuta não é uma crise de migrantes. É uma guerra que não quisemos ver


Há um erro de diagnóstico que a Europa insiste em repetir, e que voltou a repetir- se em Ceuta no final de julho de 2026: confundir uma arma com um acidente.

Quando entre 60 mil e 75 mil pessoas atravessam uma fronteira em poucos dias, coincidindo com o Dia do Trono de Marrocos, isso não é uma crise humanitária espontânea. É uma decisão política tomada em Rabat e dirigida diretamente a Madrid.

Sabemos hoje, graças a fontes militares e civis citadas pelo jornal espanhol The Objective, que os serviços de informação alertaram o governo espanhol com dias de antecedência. Foram sinalizados autocarros a chegar em número invulgar a Fnideq, a povoação marroquina mais próxima da fronteira, e cerca de mil pessoas a nadar em direção ao enclave nos dez dias anteriores ao pico da crise.

Foi ainda sinalizada a probabilidade de um “gesto de magnanimidade” do Rei Mohamed VI, coincidindo com o feriado da monarquia. Ainda assim, Madrid foi apanhada de surpresa, enquanto a gendarmaria marroquina permaneceu, segundo essas fontes, “de braços cruzados” durante as travessias. Não é falha de inteligência. É falha de vontade política em admitir o óbvio: um vizinho a usar pessoas como instrumento de pressão diplomática. Quem acompanha a relação entre Espanha e Marrocos sabe que isto já aconteceu antes e voltará a acontecer. Em 1975, a Marcha Verde consolidou a anexação marroquina do Saara Ocidental, apesar de o Tribunal Internacional de Justiça ter concluído nesse mesmo ano que os laços históricos entre o sultão e as tribos saarauís não equivaliam a soberania territorial. Em 2002, o incidente da Ilha Perejil colocou tropas dos dois países frente a frente por um rochedo desabitado.

Em 2021, mais de oito mil pessoas cruzaram para Ceuta, incluindo cerca de 1.500 menores não acompanhados num único dia, como retaliação pelo acolhimento em Espanha do líder saarauí Brahim Ghali. O European Council on Foreign Relations descreveu esse episódio como uma tentativa deliberada de punir Espanha através da fronteira, explorando as tensões políticas internas em torno da questão dos menores. Cinco anos depois, o guião repete-se quase palavra por palavra.

Por trás destes episódios está a doutrina do “Grande Marrocos”, formulada nos anos 1950 por Allal al-Fassi, fundador do partido Istiqlal, que reivindicava o Saara Ocidental, mas também Ceuta, Melilha e outros territórios espanhóis do Norte de África como remanescentes coloniais a recuperar. Marrocos já reconheceu a independência da Mauritânia em 1969 e delimitou a fronteira com a Argélia em 1972, abandonando essas frentes originais. Mas nem a declaração de normalização bilateral assinada com Espanha em 2022 incluiu qualquer renúncia expressa às pretensões sobre Ceuta e Melilha. Investigadores académicos chamam a isto uma estratégia de “zona cinzenta”, ativada ou desativada consoante convém a Rabat.

A cientista política Kelly Greenhill deu um nome a este fenómeno há mais de uma década: “migração coercitiva planeada”. Estudou mais de cinquenta casos semelhantes e concluiu que a tática funciona em mais de metade das vezes, precisamente porque explora o compromisso das democracias liberais com os direitos humanos. É o mesmo manual usado pela Bielorrússia contra a Polónia, a Lituânia e a Letónia em 2021, quando o regime de Alexander Lukashenko organizou o transporte de migrantes do Médio Oriente até à fronteira da União Europeia em retaliação por sanções ocidentais. A própria União Europeia já reconheceu formalmente esta prática como “instrumentalização da migração”.

Não é uma anomalia ibérica. É uma tática exportável, já testada por diferentes atores estatais.

O efeito mais devastador destas operações não acontece na fronteira, mas dentro das nossas sociedades. Cada imagem de multidões a atravessar uma vedação alimenta narrativas de desinformação, amplificadas por atores externos com interesse em fragmentar a coesão europeia. Dá argumentos aos extremos políticos e transforma um problema de política externa num pretexto de guerra cultural interna. Análises recentes já classificam Ceuta como uma “frente na guerra pelo Estreito”, inserida em rivalidades regionais mais amplas. O objetivo
final não é ocupar território. É dividir-nos por dentro. Portugal partilha fronteiras marítimas e vulnerabilidades geopolíticas com Espanha, ainda que a sua exposição direta seja, por agora, menor. Mas enquanto a Europa tratar estes episódios como emergências humanitárias isoladas, em vez de reconhecer a sua natureza de guerra híbrida, continuará a pagar o resgate e a financiar o capítulo seguinte. Portugal é, simplesmente, o país que ainda não recebeu a fatura.

Hugo Andrade

Fontes de informação consultadas:
Demócrata.es: https://www.democrata.es/en/democrat-explains/the-great-morocco-the-
irredentist-policy-of-rabat/

European Council on Foreign Relations: https://ecfr.eu/article/this-time-is-different-spain-morocco-and-weaponised-
migration/

EU Alive: https://eualive.net/ceuta-is-not-a-migration-incident-it-is-a-front-in-the-war-
for-the-straits/

Taylor & Francis: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/14702436.2022.2159815

Voxeurop: https://voxeurop.eu/en/kelly-greenhill-weaponisation-migration/

Yahoo News/Euronews: https://sg.news.yahoo.com/spanish-government-received-intelligence-
warnings-121159461.html