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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Dezembro e o espelho das ilusões


“Se os animais pudessem falar, talvez os humanos chorassem.” – Autor desconhecido

Dezembro chega sempre envolto numa névoa de luzes artificiais. As ruas brilham, os anúncios prometem felicidade embalada e as vozes repetem o mesmo refrão: “tempo de dar, tempo de estar, tempo de amar, tempo de enganar”. Mas sob esta melodia doce esconde-se um silêncio profundo — o da nossa própria inconsciência.

E assim, quando chega o Natal, muitos ajoelham-se diante do Pai Natal como quem encontra um símbolo de virtude e generosidade. Com uma seriedade que nem ao diabo lembraria, acredita-se que receber bens é sinónimo de bondade — como se a moral se medisse em embrulhos e não em gestos. O chamado “espírito natalício” transforma-se, então, numa espécie de anestesia social: sorrimos, trocamos presentes e esquecemos — convenientemente — tudo o que é essencial.

Mas “se os animais pudessem falar, talvez os humanos chorassem”. Porque, ao contrário deles, somos a única espécie que parece sentir prazer na maldade e na indiferença. O filósofo Byung-Chul Han descreve o nosso tempo como o “mundo das não-coisas”: vivemos rodeados de estímulos, mas carentes de substância. Tudo é informação, mas nada é conhecimento; tudo é comunicação, mas quase nada é relação.

No início do século XXI, lembra Han, a patologia dominante é neuronal. A depressão, o défice de atenção e o esgotamento não são acidentes isolados — são sintomas de uma sociedade que glorifica a todo o custo a ilusão e o “sucesso perpétuo”. Dormir pouco, estar sempre ocupado e “fazer acontecer” tornaram-se virtudes modernas. As redes sociais coroam este culto da performance: cada um deve “vender-se” como produto, “performar” uma versão idealizada de si mesmo, ser empreendedor, coach, guru — ou, pelo menos, parecer feliz.

Vivemos numa era em que o humano se converteu em mercadoria e a autenticidade, em luxo. A imagem vale mais do que a substância, e o silêncio — outrora espaço de reflexão — foi substituído pela necessidade constante de emitir, opinar e aparecer.

Neste dezembro, talvez devêssemos fazer o contrário do habitual: não comprar, não correr, não publicar. Apenas parar. Olhar o frio, o tempo, a fragilidade. Lembrar que o memento mori não é um aviso fúnebre, mas um convite à lucidez: só quem aceita a morte pode, enfim, compreender a vida.

E porque o Natal também é tempo de recomeço, desejo a todos os leitores do MaisBeiras um Natal sereno, cheio de gestos simples e sinceros — e que o ano de 2026 nos encontre mais atentos ao essencial, menos reféns das aparências e, quem sabe, um pouco mais humanos.

Boas Festas e um Feliz Ano Novo!

Para explorar mais este tema, sugere-se a seguinte leitura.
Caeiro, António de Castro, 2025. Memento Mori: São Jerónimo de Durer. Lisboa: Editora Documenta.
Heidegger, Martin, e Ser e Tempo. Trad. Costa Benedito José Viana da, 1.ª ed. Rio de Janeiro: Zahar.
HAN, Byung-Chul, 2014. A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio D’Água.
HAN, Byung-Chul, 2021. Rostos da Morte: Investigações Filosóficas sobre a Morte. Lisboa: Relógio D’Água.
HAN, Byung-Chul, 2022. Não-Coisas: Transformações no Mundo em que Vivemos. Lisboa: Relógio D’Água.

Carlos M. B. Geraldes, Ph.D