OPINANDO: Escolha: Resultados ou Doutrina
Há uma diferença fundamental entre ter convicções e ser prisioneiro delas. O político com convicções ajusta a sua bússola à realidade; o ideólogo ajusta a realidade à sua bússola. É nessa diferença que, por vezes, se decide se um hospital funciona ou fecha, se um doente é tratado ou fica suspenso numa lista de espera. Em Portugal, essa distinção deixou de ser teórica há muito tempo.
A ciência comportamental demonstrou, com rigor crescente, que a ideologia não é apenas uma visão do mundo — é, em grau extremo, uma anestesia cognitiva. Investigação publicada pela Association for Psychological Science revela que os indivíduos têm maior dificuldade em raciocinar logicamente quando os argumentos contradizem as suas crenças políticas. Num estudo com mais de mil participantes, a chamada ideological belief bias era especialmente pronunciada em temas como políticas de imigração, saúde e educação. Não estamos a falar de desonestidade — estamos a falar de um mecanismo profundo em que o cérebro sabota a sua própria capacidade de análise para proteger uma identidade tribal. O problema agrava-se exponencialmente quando este mecanismo não opera num indivíduo isolado, mas numa elite governante. Quando o poder público é gerido a partir de certezas dogmáticas, os dados inconvenientes desaparecem das reuniões, os especialistas incómodos são afastados, e as políticas que falham continuam — porque admitir o fracasso implicaria questionar a fé.
Poucos exemplos ilustram esta dinâmica com tanta clareza como a gestão do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal durante os anos da designada “geringonça”. As Parcerias Público-Privadas (PPP) hospitalares foram encerradas não porque os dados as condenassem — bem pelo contrário. O Tribunal de Contas (TdC) concluiu em 2021 que os hospitais em PPP de Cascais, Braga, Vila Franca de Xira e Loures estavam plenamente integrados no SNS, tinham gerado poupanças para o Estado e registavam padrões de qualidade superiores à média pública. A decisão de os desmantelar foi ideológica, não técnica — e os seus efeitos não tardaram a fazer-se sentir.
O caso do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, tornou-se o símbolo mais visível desta escolha. Considerado um modelo de referência enquanto PPP com o grupo Luz Saúde desde 2012, o hospital entrou em colapso progressivo após a reversão para gestão pública em maio de 2022: urgências encerradas aos fins de semana, demissão de chefes de serviço, fuga de profissionais. O próprio presidente da Câmara de Loures, autarca socialista, chegou a defender publicamente o regresso ao modelo PPP. A ironia é eloquente — mas o sofrimento dos utentes não o é menos.
Esse sofrimento tem hoje nome e número. Segundo os dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) referentes ao final de 2025, 1.101.296 pessoas aguardavam consulta no SNS — um aumento de 13% face ao ano anterior — e 264.615 aguardavam cirurgia, num contexto em que foram realizadas menos cirurgias programadas do que no ano precedente. Os gastos operacionais do SNS ascenderam a cerca de 15.750 milhões de euros em 2025, também cerca de 13% acima de 2024. Em paralelo, a despesa com médicos tarefeiros e outros prestadores de serviços externos ultrapassou os 266 milhões de euros, mais 15,6% do que em 2024, e os profissionais do SNS realizaram perto de 18,5 milhões de horas extraordinárias, com um custo de quase 500 milhões de euros para o Estado. Gastar mais para produzir menos: eis o epitáfio de uma gestão guiada por princípios em vez de resultados. E os números tornam-se ainda mais insuportáveis quando se olha para a oncologia: no segundo semestre de 2025, 8.215 doentes aguardavam cirurgia oncológica, mais 9% face ao mesmo período de 2024, com 21,2% já fora dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos definidos por lei. Na cardiologia, 2.703 doentes aguardavam cirurgia cardíaca, um aumento de 39,5%, com 58,6% fora do prazo legal. São vidas suspensas enquanto se decide qual doutrina tem razão.
É neste contexto que se compreende a violência da reação suscitada pela designação de Adalberto Campos Fernandes para Coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde, anunciada pelo Presidente Seguro a 24 de abril de 2026. Médico, professor da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, ex-ministro e, acima de tudo, um tecnocrata por convicção — alguém para quem a eficiência é um imperativo ético, não uma concessão ideológica —, a sua escolha foi recebida por setores da esquerda como uma traição. Não porque ele fosse de direita. Mas porque a sua linguagem é a da racionalidade, que não respeita fronteiras partidárias. E quando uma organização — seja um partido, um governo ou uma instituição — se define pela sua ideologia, a competência técnica torna-se uma ameaça existencial: quem mede, quem avalia, quem compara, desestabiliza.
A resposta institucional, ainda que tardia, surgiu. O Governo atual anunciou em março de 2025 o regresso às PPP em cinco hospitais — Braga, Vila Franca de Xira, Loures, Amadora-Sintra e Garcia de Orta —, com concursos a lançar em 2026. “As PPP são uma questão de gestão, não de ideologia” — uma frase banal, que seria dispensável em qualquer democracia adulta, mas que diz tudo sobre os anos que a antecederam. No mesmo sentido, a eleição de António José Seguro como Presidente da República, em fevereiro de 2026, com 66,8% dos votos na segunda volta e 3.482.481 votos — o maior número absoluto de sempre numa eleição presidencial portuguesa —, representa um sinal inequívoco. A maioria dos portugueses escolheu alguém que, durante anos, preferiu o silêncio à sobrevivência política fácil, e que hoje representa a ideia de que se pode ter valores sem ser refém deles.
A cegueira ideológica não é, convém dizê-lo, um defeito exclusivo da esquerda ou da direita. É uma tentação que atravessa todo o espetro político, e a história está repleta dos seus cadáveres. O que a distingue das convicções legítimas é simples: a convicção adapta-se aos factos; a ideologia cega adapta os factos a si própria. E em saúde pública — como noutras políticas que tocam diretamente a vida das pessoas —, essa distinção tem um custo que não é abstrato nem estatístico. É humano, mensurável e, sobretudo, evitável.
Mudar isto não exige abandonar valores. Exige apenas a coragem de os distinguir das certezas que os traem. A ideologia, quando cega, não falha apenas politicamente. Mata — de forma lenta, burocrática e, por isso, especialmente imperdoável.
Hugo Andrade
