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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Inovação ou Prisão da Mente? Quando o medo do novo trava o futuro de Portugal


«Bastante é para nós que a metade oculta do globo esteja a ser trazida à luz e os Portugueses cheguem cada dia mais e mais longe além do equador. Assim, praias, desconhecidas em breve se tornarão acessíveis; pois uns emulando outro lançam-se em labores e perigos tremendo.» – Pedro Mártir de Anglería (1493)

Em 1493, Pedro Mártir de Anglería escrevia, maravilhado, sobre os portugueses que se lançavam “em labores e perigos tremendo” para desbravar o desconhecido. A coragem de atravessar mares e desafiar mapas era então o motor da inovação. Curiosidade, risco e desejo de saber moldaram uma era em que o impossível era apenas aquilo que ainda não se tentara.

Cinco séculos depois, perguntamo-nos: onde ficou essa ousadia? Terá o povo que navegou o incerto ficado encalhado na segurança das rotinas e na burocracia do costume?

O medo da inovação é hoje uma das formas mais subtis de imobilismo. Mudamos o mínimo possível, encostamo-nos ao conforto do previsível e seguimos viagem, como quem se deixa levar pela corrente. Basta olhar para o crédito à habitação, as carreiras congeladas, as reformas prometidas e nunca implementadas — cá vamos nós outra vez, com um sorriso cético e um suspiro conformado.

Nos Descobrimentos, também arriscámos — e depois gastámos tudo. Ficámos ricos, endividámo-nos, e fomos pedir emprestado. Há, no fundo da nossa identidade, uma estranha relação com o risco: ousamos, mas sem método; inovamos, mas sem estratégia.

Steve Jobs dizia que era preciso “pensar através da arquitetura das coisas”. A inovação não é apenas criar o novo — é pensar diferente, estruturar o pensamento antes da ação. Nietzsche lembrava que, quando nos mostram algo antigo dentro do novo, sossegamos — como se a novidade precisasse sempre de um travo familiar para não assustar. Belmiro de Azevedo ia mais longe: quem não aposta na inovação acaba “de pernas para o ar”.

Em Portugal, ser inovador — sobretudo no setor público — é criar sarilhos. O sistema recompensa a obediência, não a criatividade. A prudência substituiu a ambição. Como na série britânica Sim, Senhor Ministro, o Estado continua a funcionar em modo preto e branco, com uma lentidão que faz parecer que os cidadãos nem desejam que as coisas funcionem bem: «A única alegria do rebanho é quando o lobo come a ovelha do lado.»

Enquanto isso, países outrora pobres — Irlanda, Singapura, Coreia do Sul — transformaram-se em potências. Nós, pelo contrário, oscilamos entre o mito do passado glorioso e o hábito da desculpa. Pequenos? Sim. Mas também o são a Holanda e a Dinamarca — e isso nunca as impediu de ser grandes na imaginação e na eficácia.

O problema não é a falta de recursos, é a falta de estrutura mental para os pôr a render. As nossas instituições adaptam-se mais depressa aos privilégios das elites do que às necessidades da sociedade. A endogamia, a resistência à crítica e o medo de perder o controlo travam qualquer tentativa de renovação.

Como dizia Schopenhauer, “o que o rebanho mais odeia é aquele que pensa de forma diferente”. E é talvez aí que reside o nosso maior atraso: não no PIB, mas na mente. A verdadeira revolução — a que pode salvar o país do eterno “quase” — começa quando deixarmos de temer o novo e começarmos a pensar por nós próprios.

A inovação, afinal, é um ato de liberdade.

Bibliografia

Pedro Mártir de Anglería (1457–1526)
Anglería, P. M. (1493). De Orbe Novo. Sevilha: [edições modernas disponíveis]. Alcion Editora.
Contexto: Crónicas sobre os Descobrimentos portugueses, destacando a ousadia e coragem dos navegadores do século XV.
Steve Jobs (1955–2011)
Isaacson, W. (2011). Steve Jobs. Editora, Objetiva, 2021
Contexto: Insights sobre pensamento inovador, design e arquitetura das ideias.
Friedrich Nietzsche (1844–1900)
Nietzsche, F. (1887). A Gaia Ciência. Ed. Relógio D Água
Contexto: Reflexões sobre novidade, tradição e o impacto psicológico do novo sobre a mente humana.
Belmiro de Azevedo (1938–2017)
Reportagens e entrevistas em jornais portugueses (ex.: Expresso, Jornal de Negócios), disponíveis online.
Contexto: Empresário português que enfatizava a importância de inovar e arriscar nos negócios.
Arthur Schopenhauer (1788–1860)
Schopenhauer, A. (1844). Parerga e Paralipomena. Leipzig: Brockhaus.
Contexto: Filosofia sobre pensamento crítico, sociedade e resistência à inovação.

Carlos M.B. Geraldes, PhD.