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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Instituições não são máquinas


Entre a pressa da reforma técnica e a tentação da rutura total, talvez o que falte à democracia seja paciência para deixar as instituições regressarem à sua própria origem.

Há qualquer coisa de exaustivo em ligar as notícias e ouvir, invariavelmente, que “as instituições falharam”. Falha o Parlamento, falham os tribunais, falham os partidos, falha a universidade. A lista é longa e a sensação, familiar: a de viver rodeados de estruturas que já não servem para nada, senão para se protegerem a si próprias.

Compreendo essa exaustão. Vivemos tempos em que tudo parece exigir resposta imediata; um escândalo, uma manifestação, uma sondagem, e as instituições, por definição, não trabalham a essa velocidade. Um parlamento delibera devagar. Um tribunal pondera antes de decidir. Uma universidade forma, não fabrica. Confundimos essa lentidão com inutilidade, e daí nasce a tentação de duas soluções fáceis: reformar tudo por decreto técnico, como quem troca uma peça avariada, ou deitar tudo abaixo, como se a autenticidade só existisse fora de qualquer mediação.

Nenhuma das duas resolve nada. A tecnocracia trata a política como engenharia e esquece que instituições não são máquinas, são heranças vivas, feitas de pessoas, memória e compromisso. A rutura, por seu lado, ilude-se ao pensar que é possível recomeçar do zero, como se uma sociedade pudesse, de um dia para o outro, prescindir de tudo o que a antecedeu. Ambas partilham o mesmo erro: a pressa.

Talvez o problema não esteja nas instituições, mas na expetativa que depositamos nelas. Queremos que um voto resolva uma injustiça histórica, que uma lei mude comportamentos da noite para o dia, que uma reforma cure décadas de desconfiança. Quando isso não acontece, vem a deceção, e da deceção ao cinismo é um passo curto.

Mas há uma alternativa a este pêndulo entre otimização e demolição: recuperar as instituições em vez de as substituir ou as abandonar. Não se trata de as defender cegamente, muitas delas, de facto, deixaram de se questionar a si próprias e limitam-se a repetir hábitos administrativos sem sentido. A crítica é legítima e necessária. O que não é legítimo é confundir essa crítica com a ideia de que tudo deve ser deitado fora.

Uma instituição saudável é aquela que sabe voltar às suas origens sem as copiar. Que reinterpreta o motivo pelo qual foi criada: organizar o desacordo, mediar interesses, permitir que gente diferente conviva sem se destruir, e o adapta ao presente. É isso que distingue uma instituição viva de uma casca vazia.

Isto exige algo que a nossa época trata com desconfiança: paciência. Não a paciência resignada de quem aceita tudo, mas a paciência de quem sabe que mudar de verdade leva tempo, e que nenhuma transformação duradoura nasce de um clique, de uma manifestação ou de uma legislatura.

Talvez a maturidade democrática que nos falta não seja mais reforma nem mais indignação, mas a coragem de aceitar que certas perguntas, sobre justiça, representação, poder, nunca se fecham de vez. Ficam sempre em aberto, para a geração seguinte responder à sua maneira. Isso não é fraqueza das instituições. É, afinal, o que as mantém vivas.

Hugo Andrade