OPINANDO: Integridade no desporto exige coragem. Mas também exige justiça para o Interior
O texto de Paulo Menano toca num ponto essencial e que não pode continuar a ser tratado como simples nota de rodapé no futebol português: a integridade no desporto não é um luxo moral, nem um tema decorativo para preencher agendas institucionais. É uma necessidade estrutural. É uma condição básica para que o desporto mantenha credibilidade, verdade competitiva e utilidade social.
Quando se fala de integridade, fala-se de ética, de respeito, de responsabilidade, de verdade desportiva, de fair-play e de combate à manipulação. Tudo isso é certo. Tudo isso é necessário. Tudo isso deve ser ensinado, repetido e defendido. E, por isso mesmo, a formação promovida junto dos clubes da Associação de Futebol da Guarda merece reconhecimento. Porque toca em matérias centrais. Porque chama dirigentes, treinadores, atletas e demais agentes à responsabilidade. Porque lembra que o desporto, sobretudo ao nível da formação, tem uma missão muito maior do que ganhar jogos ou conquistar classificações.
Mas há uma verdade que não pode ser suavizada.
Não basta falar de integridade aos clubes amadores e aos clubes de formação do Interior, se depois o próprio sistema continua a tratá-los com uma injustiça crónica, uma desigualdade gritante e um abandono quase institucionalizado.
Porque a integridade também se mede na forma como se distribuem oportunidades.
Também se mede na forma como se protegem os mais frágeis.
Também se mede na coerência entre o discurso dos valores e a realidade vivida por quem anda todos os dias no terreno.
E é aqui que o país desportivo falha, há décadas, sem vergonha e sem vontade séria de corrigir.
Os clubes amadores e formadores do Interior vivem numa luta desigual. Formam jovens, educam-nos, enquadram-nos, acompanham-nos, muitas vezes retiram-nos de ambientes sociais difíceis, ajudam a dar disciplina, pertença e rumo. Fazem, em muitos casos, um trabalho que vai muito para além do futebol. Fazem trabalho social, humano e comunitário. E fazem-no quase sempre com muito pouco: pouco dinheiro, poucas infraestruturas, poucos técnicos qualificados, pouca atenção mediática e escasso apoio efectivo.
Quando falamos do Interior esquecido, falamos de realidades concretas e persistentes. Falamos dos distritos de Bragança, Vila Real, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja, sem esquecer tantas zonas do interior dos distritos de Coimbra, Santarém e Faro, onde a distância ao poder, à decisão e ao investimento também se sente com dureza. Falamos de territórios onde o despovoamento corrói, onde faltam oportunidades, onde os jovens partem, onde os clubes resistem quase por milagre e onde a prática desportiva continua a sobreviver graças ao esforço de dirigentes benevolentes, treinadores sacrificados, famílias exaustas e comunidades que ainda se recusam a desistir.
É por isso que falar de integridade sem falar de contexto é ficar a meio do caminho.
Não há verdadeira defesa da integridade se os clubes formadores do Interior continuam expostos ao saque dos seus melhores talentos sem protecção digna.
Não há verdadeira ética desportiva se os pequenos investem e os grandes aparecem apenas para recolher.
Não há verdade desportiva onde existe uma desigualdade territorial tão evidente e, ainda assim, tão normalizada.
Não há respeito pelo futebol de formação quando quem o sustenta na base é tratado como peça descartável.
A formação sobre integridade é importante. Muito importante. Mas a integridade não pode ser apenas aquilo que se ensina aos outros. Tem de ser também aquilo que as estruturas demonstram nas suas decisões. E aí entram as associações, as federações, os clubes profissionais e o próprio poder político.
Porque um sistema íntegro não é aquele que apenas fala de valores.
É aquele que protege quem forma.
É aquele que compensa de forma justa quem investe na base.
É aquele que cria condições para que os clubes do Interior não sejam eternos sobreviventes.
É aquele que não transforma o centralismo em regra e a exclusão territorial em hábito.
Durante anos, pediu-se ao Interior que resistisse calado.
Que continuasse a formar.
Que continuasse a competir.
Que continuasse a alimentar o futebol português com jogadores, treinadores, dirigentes e gente de enorme valor.
Tudo isto sem meios, sem retorno proporcional e sem respeito compatível com a importância da sua função.
E, no entanto, o Interior continua de pé.
Continua de pé na Guarda.
Continua de pé em Castelo Branco.
Continua de pé em Viseu.
Continua de pé em Bragança e Vila Real.
Continua de pé em Portalegre, Évora e Beja.
Continua de pé em tantas localidades onde o clube é muito mais do que um emblema: é ponto de encontro, é refúgio, é escola de vida, é pilar de identidade local.
Por isso, a reflexão de Paulo Menano deve ser levada a sério e ampliada com frontalidade.
Promover a integridade no desporto é fundamental.
Mas promovê-la a sério implica dizer que os clubes amadores e de formação do Interior não precisam apenas de acções pedagógicas.
Precisam de protecção.
Precisam de financiamento mais justo.
Precisam de mecanismos reais de valorização do seu trabalho.
Precisam de respeito institucional.
Precisam de políticas desportivas que deixem de olhar para o Interior como uma periferia útil apenas quando convém.
Porque a integridade não é só um dever individual.
É também uma obrigação do sistema.
E o sistema falha sempre que exige valores aos mais pequenos, enquanto fecha os olhos às assimetrias que os esmagam.
Falha sempre que usa a palavra formação como bandeira, mas abandona quem realmente forma.
Falha sempre que elogia a ética em seminários, mas tolera a desigualdade no terreno.
O futebol português não se regenera apenas com discursos.
Regenera-se com justiça.
Com coragem.
Com coerência.
E com a capacidade de reconhecer que o futuro sério do desporto nacional também depende — e depende muito — daquilo que acontece longe dos grandes centros, longe das luzes, longe dos interesses habituais.
Sem os clubes amadores e formadores do Interior, o futebol português perde base, perde alma e perde futuro.
E sem justiça para essa base, a palavra integridade arrisca-se a ser apenas mais uma expressão bonita num sistema que continua a falhar onde mais importa.
