OPINANDO: Marketing Desportivo sem Futebol Amador é apenas vaidade institucional
Fala-se muito de Marketing Desportivo em Portugal.
Fala-se na Federação Portuguesa de Futebol, fala-se na Liga, fala-se no IPDJ, fala-se em congressos, formações, painéis, relatórios, apresentações bonitas e discursos cheios de modernidade.
Fala-se de marcas, de engagement, de audiências, de conteúdos digitais, de patrocinadores, de activação comercial, de internacionalização, de inovação e de sustentabilidade.
Tudo muito bonito.
O problema é que, quando olhamos para o futebol amador, o discurso desaparece.
E estamos a falar de quê?
De mais de 2 mil clubes amadores.
De cerca de 200 mil praticantes.
De milhares de dirigentes voluntários.
De treinadores mal pagos ou não pagos.
De pais que transportam filhos.
De campos que são centros de vida comunitária.
De clubes que substituem, muitas vezes, o Estado, a escola, a família e as próprias autarquias na integração de jovens, na criação de hábitos, na disciplina, na ocupação saudável dos tempos livres e na preservação de identidade local.
Mas para este universo quase ninguém olha com seriedade.
O futebol amador continua a ser tratado como parente pobre do sistema. Serve para discursos emocionais, para fotografias com crianças, para promessas em tempo de eleições e para alimentar a base do futebol profissional. Mas quando se fala de estratégia, receita, marketing, capacitação, turismo, tecnologia e futuro, fica quase sempre à porta.
E isso é uma vergonha.
Porque o futebol amador não precisa apenas de subsídios. Precisa de visão.
Precisa de ferramentas.
Precisa de formação prática.
Precisa de apoio jurídico.
Precisa de comunicação.
Precisa de modelos de receita.
Precisa de capacidade para atrair empresas locais.
Precisa de saber contar a sua própria história.
Precisa de deixar de ser visto apenas como despesa e passar a ser entendido como activo social, desportivo, económico e territorial.
E aqui entra uma vertente quase sempre ignorada: o Turismo Desportivo.
Portugal tem clubes amadores espalhados por vilas, aldeias, cidades médias, zonas do interior, regiões costeiras, territórios de enorme beleza natural, património histórico, gastronomia, hotelaria local, identidade cultural e potencial humano.
Quantos torneios poderiam ser criados?
Quantos fins-de-semana desportivos poderiam trazer famílias, equipas, árbitros, treinadores, adeptos e visitantes?
Quantos clubes poderiam gerar receita através de eventos, estágios, clinics, intercâmbios, torneios internacionais jovens, provas regionais, experiências desportivas e culturais?
Quantos restaurantes, hotéis, alojamentos locais, cafés, empresas de transporte, comércio tradicional e produtores locais poderiam beneficiar de uma estratégia organizada em torno do desporto amador?
Mas nada disto acontece com escala porque falta pensamento estratégico.
E, sejamos claros, a primeira responsabilidade deveria estar nas Câmaras Municipais.
São as autarquias que mais financiam o desporto amador e regional. São elas que apoiam clubes, cedem campos, pagam transportes, ajudam nas obras, suportam eventos e mantêm muitas estruturas vivas.
Então, se já investem, por que razão não exigem também estratégia?
Por que razão não ajudam os clubes a transformar esse apoio em valor económico para o concelho?
Por que razão não criam planos municipais de turismo desportivo?
Por que razão não juntam clubes, escolas, hotéis, restaurantes, associações empresariais, juntas de freguesia e agentes culturais à volta de uma ideia comum?
O problema é que, muitas vezes, o apoio municipal ao futebol amador continua preso à lógica pequena do subsídio anual, da fotografia no jantar de aniversário e da promessa de trocar o sintético quando houver verba.
Isso já não chega.
O futebol amador precisa de entrar no século XXI.
E para isso é preciso coragem para dizer o óbvio: Federação, Liga, IPDJ, Associações de Futebol e Câmaras Municipais falam muito de desenvolvimento, mas falham redondamente quando o tema é dar ao futebol amador instrumentos reais para gerar receita, ganhar autonomia e criar impacto económico local.
Marketing Desportivo não pode ser apenas para clubes profissionais.
Turismo Desportivo não pode ser apenas para grandes eventos.
Inovação não pode ser apenas para quem já tem dinheiro.
O verdadeiro desafio está precisamente onde quase ninguém quer trabalhar: nos clubes pequenos, nos campos periféricos, nas aldeias, nas vilas, nos bairros, nas regiões esquecidas.
É aí que está a base.
É aí que estão os jovens.
É aí que está a comunidade.
É aí que está uma enorme oportunidade económica, social e territorial.
Mas enquanto os responsáveis continuarem a olhar para o futebol amador como uma obrigação administrativa e não como uma plataforma de desenvolvimento, continuaremos a desperdiçar talento, território, identidade e dinheiro.
O futebol amador não precisa de pena.
Precisa de estratégia.
Não precisa apenas de apoios.
Precisa de modelos.
Não precisa de discursos.
Precisa de ferramentas.
E o Turismo Desportivo pode ser uma dessas ferramentas.
Uma ferramenta séria, concreta, sustentável e capaz de transformar muitos clubes amadores em motores de actividade local.
Mas para isso é preciso que alguém, finalmente, deixe de falar para os palcos e comece a olhar para os campos.
Porque o futuro do futebol português não se joga apenas nos estádios da Liga.
Joga-se, todos os dias, nos campos onde quase ninguém aparece, mas onde o país ainda respira futebol verdadeiro.
Fernando Mendes
CEO – Globall Football
