OPINANDO: Metade do país está fora do futebol profissional português
Há uma verdade desconfortável no futebol português que raramente se discute de forma séria.
Metade do país praticamente não existe no futebol profissional nacional.
E não estamos a falar apenas da Primeira Liga.
O problema estende-se a toda a estrutura competitiva. A Primeira Liga tem 18 clubes, a Segunda Liga outros 18 e a Liga 3 reúne 20 equipas. No total, 56 clubes compõem os três principais níveis do futebol profissional e semi-profissional em Portugal.
Quando se observa a geografia desses clubes, o padrão repete-se com uma persistência impressionante: a esmagadora maioria está concentrada no litoral ou nas áreas metropolitanas próximas da costa.
Durante décadas, o mapa do futebol foi desenhado como se Portugal terminasse na linha do mar. Lisboa, Porto e algumas cidades costeiras concentram investimento, visibilidade mediática e poder de decisão.
O resto do território aparece, quando muito, como exceção ocasional.
Mas Portugal não é apenas o litoral.
Portugal também é Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora e Beja. São territórios onde vivem milhões de portugueses e onde o futebol continua a ser um dos poucos espaços de mobilização comunitária.
E, no entanto, esses territórios continuam praticamente ausentes do futebol profissional — não apenas da Primeira Liga, mas também das competições imediatamente abaixo que deveriam funcionar como ponte natural para a elite.
O resultado é um vazio territorial preocupante.
E convém dizê-lo sem rodeios:
Há distritos em Portugal que não têm um único clube nas três ligas profissionais.
Não é uma ausência ocasional.
Não é um acidente desportivo.
São décadas.
Décadas em que partes inteiras do território nacional deixaram de existir no mapa do futebol.
Isto não é apenas um problema desportivo.
É um problema de país.
Quando uma região desaparece do mapa.
O futebol é mais do que um jogo. É um palco social, cultural e económico.
Quando uma região aparece regularmente nesse palco, ganha visibilidade, autoestima e capacidade de atrair investimento e atividade.
Quando desaparece dele, acontece o contrário.
E o Interior português conhece bem esse processo.
Durante décadas assistimos a um ciclo silencioso: os jovens saem, as populações envelhecem, as oportunidades diminuem e o território vai desaparecendo do centro das decisões nacionais.
O futebol não é a causa deste problema.
Mas podia ser parte da solução.
O poder invisível de um clube.
Um clube profissional numa cidade do Interior não representa apenas uma equipa que joga ao domingo.
Representa atividade económica.
Representa turismo.
Representa comércio local.
Representa mobilização comunitária.
Mas, acima de tudo, representa esperança para os jovens.
Quando um jovem vê um clube da sua cidade ou da sua região competir ao nível profissional, algo muda. O sonho deixa de estar apenas em Lisboa ou no Porto.
Passa a existir ali.
E isso muda mentalidades, ambições e percursos de vida.
O exemplo que o Interior pode dar.
Quando projetos como os do Académico de Viseu ou do Tondela surgem, muitos tratam-nos como histórias improváveis.
Não são improváveis.
São apenas raros.
E são raros porque o sistema nunca foi pensado para criar verdadeiro equilíbrio territorial.
Um campeonato verdadeiramente nacional deveria refletir o país inteiro.
Não apenas a parte mais populosa ou economicamente dominante.
Coimbra e a memória do equilíbrio perdido.
Neste debate há também um símbolo histórico que merece ser lembrado: a Associação Académica de Coimbra.
Durante décadas, a Académica representou uma espécie de ponte entre litoral e Interior. Um clube profundamente ligado à cidade, à universidade e à cultura portuguesa.
O seu regresso ao protagonismo competitivo seria mais do que a recuperação de um clube histórico.
Seria o sinal de que o futebol português pode voltar a ter geografia.
Uma escolha de país.
Portugal enfrenta hoje um desafio demográfico profundo. O Interior perde população, envelhece e luta para manter atividade económica e social.
Neste contexto, ignorar o papel que o desporto — e o futebol em particular — pode ter na coesão territorial é um erro estratégico.
O futebol mobiliza comunidades como poucas outras atividades conseguem fazer.
Usá-lo como instrumento de desenvolvimento regional não é romantismo.
É visão.
O manifesto
O Interior não pede favores.
Pede apenas que o país deixe de organizar o seu principal espetáculo desportivo como se metade do território fosse apenas paisagem.
Um futebol verdadeiramente nacional precisa de representar o país inteiro — desde a Primeira Liga até às ligas profissionais que lhe servem de base.
Porque quando um território desaparece dessas competições, desaparece também da conversa, da visibilidade e das oportunidades.
E quando isso acontece durante décadas, deixa de ser acaso.
Passa a ser modelo.
Um modelo que deixa metade do país de fora.
E um país que aceita isso está, na prática, a dizer aos jovens do Interior que o centro do jogo — e do futuro — está sempre noutro lugar.
E um país que faz isso está a abdicar de parte de si próprio.
Fernando Mendes
CEO – Globall Football
