OPINANDO: Não fui eu. Juro pela “Fátima”!
São muitas as vezes em que começo a escrever sem fazer a mínima ideia de onde o texto irá terminar.
Misturam-se ideias daqui apontamentos dali trocas de opiniões e conversas com amigos — ou nem por isso — e parto a partir daí. São inúmeras as ocasiões em que isso acontece. E é algo profundamente prazeroso e compensador.
Durante os últimos dias, tendeu que não havia nada de particularmente especial ou interessante que quisesse colocar no papel. Mas, num ápice, tudo muda e percebi que estava enganado.
Tenho um “inconveniente” em relação a tudo o que escrevo: só consigo escrever quando sinto verdadeira necessidade de transformar em palavras, sentimentos, emoções, pensamentos ou até ideias em forma de protesto, alerta ou reflexão.
Por isso, seja interessante ou não, é assim que me apresento através da escrita: sem imposições. Já o fiz, admito, e a sensação foi semelhante à de cozinhar com toda a dedicação em busca do melhor paladar, mas esquecer um condimento essencial. O prato está lá, o aspeto também, mas faltava-lhe o essencial, o sabor.
Não me forço a escrever sobre a atualidade dos acontecimentos e muito menos entrar em segregação da minha escrita em função da muita banalidade social.
Esta semana, os contributos para a escrita, pareciam escassos como já afirmei, até que de onde menos se esperava eles apareceram, e neste caso foram ingressos que mereceram um registo para o mundo, ainda que seja partilhado com meia dúzia de pessoas, se for.
Dois amigos, companheiros de tertúlia, desafiaram-se mutuamente a fazer uma peregrinação a pé desde a Guarda até ao Santuário de Fátima, à semelhança de tantos e tantos peregrinos que também se fizeram ao caminho, como particularidade desta altura do ano.
Não percebi — nem questionei — o que os motivou: se a fé, uma promessa ou apenas o desafio. E, sinceramente, não me pareceu relevante.
Porque, para mim, há algo muito maior que esta peregrinação nos oferece. Falo por experiência própria, porque também já o fiz. Sozinho. Ou melhor, sozinho apenas fisicamente.
Como dizia, existe algo de profundamente superior nesta caminhada. Em conversa com esses amigos sobre a experiência, percebemos que, para além do esforço físico, há algo magistral que é unânime entre nós.
Quilómetro após quilómetro, tudo aquilo que não acrescenta, vai ficando pelo caminho. Muito do que carregamos diariamente como se fossem pedras basilares acaba abandonado num pedaço de alcatrão, uma pedra atrás da outra. O peso desaparece e, em simultâneo, impõe-se a evidência daquilo que realmente importa daquilo que é apenas acessório.
Nossa Senhora de Fátima toca muitos corações e, independentemente das crenças religiosas de cada um, há algo que este caminho desperta inevitavelmente: a introspeção que nos conduz ao nosso interior mais profundo e que por diversas vezes mantemos adormecido.
O futebol, as pequenas escaramuças, as raivas, os ódios, as ambivalências… tudo passa para um plano insignificante quando comparado com a grandeza do reencontro com o nosso “eu” — ou, se preferirem, com a nossa alma.
Damos por nós a relativizar o jogo do Sporting, a desdramatizar aquele fulano que nos magoou e tantas outras coisas estapafúrdias. Lentamente, e de forma genuína, começamos a valorizar o que realmente faz sentido: o amigo que carece de saúde, a amiga que atravessa circunstâncias difíceis e todos aqueles que necessitam da nossa ajuda e apoio.
Por momentos, homens sem religiosidade afincada, fazem do rezo, o meio para querer ajudar todos os que precisam. Por meio do rezo, todos os que congregam, estão presentes e com um sentimento de humildade caminham lado a lado connosco na nossa peregrinação. O rezo, é a forma mais sublime e modesta de termos os outros no nosso pensamento.
Ir a Fátima é extraordinário. E chegar lá impõe a lágrima emocional — não pelo desespero físico, nem pelo pensamento fácil, mas pelo encontro com a tolerância, o altruísmo e a empatia.
Ir a Fátima é, talvez, o começo do encontro mais às escuras que podemos ter e o final do encontro, a chegada ao Santuário, quiçá o mais inspirador e realista que algum dia lograremos apreciar.
No fundo, precisamos de tempo para que o nosso tempo seja verdadeiramente profícuo, tenaz e cheio de significado. Mas, acima de tudo, cheio de alma.
Penso que todos, religiosos ou não, com credos de toda a natureza, deveríamos ter um bocadinho que seja de Fátima em nós. Talvez o mundo fosse um sítio melhor para viver.
A terminar, e em tom de brincadeira, recordo um dos pequenos reguilas lá de casa que, depois de uma traquinice, exclamou:
“Juro pela Fátima… não fui eu! Juro pela Fátima!”
Filipe André
