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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Numa bonita festa não há ogres


Numa bonita festa, para a qual tive o privilégio de ser convidado, apercebi-me de algo que me encheu a alma e me confortou o intelecto.

Éramos vários convidados, uma boa parte — talvez a maioria — com mais de 40 anos de idade. Estavam presentes também alguns jovens, uns ainda muito jovens e outros já menos.

Durante a celebração, já à mesa de convívio, abstraí-me, olhei à minha volta e registei algo que me é familiar, mas que, ultimamente, se tornou raro.

Nas outras mesas, tal como na minha, sobressaíam as conversas agradáveis e estimulantes sobre os mais variados temas que lhes serviam de mote. Confesso que me agradou esta semelhança com tempos que pareciam perdidos.

Penso que hoje estamos a perder, em grande escala, uma das melhores competências do ser humano: a comunicação pura e inestimável, cada vez mais ausente na espuma dos nossos dias, fruto da presença avassaladora da comunicação digital.

Nas mesas do beberete, ao perceber a quase inexistência da dependência desses objetos, regozijei-me. Parece-me algo digno de registo e que em nada se coaduna com a forma como as gerações do amanhã têm vindo a encarar estas convivências diárias.

A nossa juventude passa horas a comunicar através de um aparelho, como se estivesse encarcerada num determinado lugar, longe de toda a civilização. Tenho reparado, na adolescência de agora, que o mísero ogre tecnológico até serve para disfarçar a timidez em alguns momentos menos cómodos.

Agora, quando vemos um teenager, por exemplo, a ter de conhecer o pai da amiga ou do amigo que mais lhe agrada, a reação típica, perante a dificuldade de lidar com a situação, é pegar no ogre.

Mas há mais.

Muitas mesas de convívio estão, manifestamente, desatualizadas nos dias que correm. Outrora desenhadas para receber e sustentar chávenas, copos e garrafas, ficaram exíguas para esses objetos e, simultaneamente, mudas perante as conversas digitais.

Preocupa-me o caminho por onde seguimos.

Olhar nos olhos de uma pessoa, mesmo sem palavras, produz, em muitos casos e num reduzido espaço de tempo, mais palavras do que o livro de Marcel Proust alguma vez conseguirá.

É precioso que as palavras fluam por entre gestos e maneiras, com o fim muito claro de se valorizarem no seu sentido. Esse sentido pode assumir várias formas, mas, quando acompanhado por um olhar ou por uma entoação diferente, pode adquirir um significado totalmente distinto daquele que se escreve. É fundamental, quanto a mim, continuarmos a falar com toda a nossa expressão, para lá do insípido e pouco sentimental canal digital.

Um “gosto de ti” irá sempre precisar de um abraço ou de um beijo delicado. Um “tenho orgulho em ti” precisará sempre de um olhar fixo de incentivo e gratificação.

Não vejo um “tem calma, tudo se compõe” sem uma carícia na face. Não vejo. Nem quero ver.

Naquela festa, sorriu-se às mesas, gargalhou-se, fizeram-se várias carantonhas, seguidas de gestos verdadeiramente dignos das capacidades humanas. Um deleite para quem, como eu, se dava ao regalo dessa observação.

E, mesmo à saída, houve abraços de “quero voltar a vê-lo”, mãos nos ombros de eterna gratidão e até pingos de emoção, por ainda sabermos que há palavras que serão, para sempre, símbolos dos atos de admiração da humanidade.

Filipe André