OPINANDO: O Académico de Viseu que devolve o Interior ao mapa da Primeira Liga
Depois de 37 anos de ausência, o regresso do Académico de Viseu ao escalão principal do futebol português é mais do que uma proeza desportiva: é a prova de que o Interior ainda pode ter um lugar na conversa nacional, e um teste à vontade do país de o manter lá.
Basta olhar para um mapa da Primeira Liga para entender o problema. Na temporada anterior, o campeonato estava concentrado quase inteiramente no Litoral norte e na Grande Lisboa, sem qualquer representante do Alentejo, do Algarve ou de Trás-os-Montes. A Football Benchmark confirma esta assimetria com outros números: fora dos polos de Lisboa e do Porto, apenas o Tondela, o Santa Clara e o Nacional conseguiram disputar o escalão principal em anos recentes. É este vazio que o Académico de Viseu vem preencher — e fá-lo depois de 37 anos de espera, selados por um empate sem golos com o Sporting B em maio de 2026.
A academia já explicou porque é que isto raramente acontece. Um estudo de referência de Paulo Reis Mourão sobre a localização de equipas profissionais em Portugal identifica três fatores que determinam se um concelho consegue sediar um clube na divisão principal: o rendimento per capita, o nível de infraestruturas e a dimensão populacional — três variáveis em que o Litoral parte sistematicamente na frente. O mesmo estudo sublinha, contudo, algo essencial: a presença de um clube na primeira liga gera “externalidades” que vão muito além do resultado do jogo — fluxos de turismo adicional e, sobretudo, “sentimentos de unidade local e de orgulho”. É exatamente isso que se viu quando a Câmara Municipal de Viseu recebeu os “lendários” do Académico de Viseu no salão nobre dos Paços do Concelho, com a mensagem de que “o nome dos viseenses ecoa bem forte, para lá do Interior de Portugal”.
A própria Federação Portuguesa de Futebol já assumiu isto como prioridade estratégica. Pedro Proença, seu presidente, afirmou que “num país marcado por desafios territoriais, o Futebol possui um poder único de mobilização, no combate à desertificação”, enquadrando o Plano Estratégico 2024-2036 na correção de “assimetrias entre clubes e regiões”. O caso do Académico de Viseu é o exemplo mais visível dessa ambição em 2026: um concelho com 99.551 habitantes, segundo os Censos 2021 do INE, e um estádio — o Fontelo — com 6.912 lugares, vão receber SL Benfica, FC Porto e Sporting CP ao longo da temporada, com toda a exposição mediática e turística que isso implica.
Não ignoro que o motor por detrás da subida é, em boa parte, capital alemão: a HOBRA GmbH & Co. KG controla hoje cerca de 90% da SAD do Académico de Viseu. E o próprio jornal Record nota que “cerca de duas em cada três (equipas profissionais) têm capital estrangeiro na sua estrutura ” — um sinal de como o país se tornou um destino barato para investimento internacional. Mas prefiro este modelo, quando enraizado localmente, a um cenário em que o capital estrangeiro continua a concentrar-se apenas nos três ou quatro clubes já dominantes. O clube tem procurado esse enraizamento: campanhas nas escolas do distrito, Fan Zones no Rossio, escalonamento de bilhetes de época a favor dos sócios mais antigos.
Os céticos apontarão, com razão, que este é apenas um clube, e que a Beira Alta continua isolada num mapa dominado pelo Litoral. Mas o desenvolvimento regional não se resolve com um único fator — resolve-se com a acumulação de sinais de que um território ainda importa. Cada golo marcado no Fontelo esta temporada é, também, um sinal desses. Cabe agora ao país, e não apenas ao Académico de Viseu, garantir que o Interior não desaparece do mapa na próxima descida de divisão.
Hugo Andrade
Fontes de informação consultadas:
Federação Portuguesa de Futebol: https://www.fpf.pt/pt/News/Todas-asnot%C3%ADcias/Not%C3%ADcia/news/55651
Football Benchmark Group: https://footballbenchmark.com/w/assessing-the-landscape-of-portugal-s-keyfootball-hubs
MaisBeiras Informação: https://sapo.pt/artigo/viseu-academico-de-viseu-recebido-em-festa-na-camaramunicipal-com-audio-6a0caa7afed62e4003de6506
Revista Portuguesa de Estudos Regionais https://www.redalyc.org/pdf/5143/514351907002.pdf
