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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: O futebol de formação é muito mais do que um jogo – No interior do país, o futebol é também educação, comunidade e futuro


Desafiado pelo meu amigo #PauloMenano

Há algo que muitas vezes esquecemos quando falamos de futebol de formação: não estamos apenas a falar de um jogo. Estamos a falar de crianças, de educação, de valores e, em muitos casos, do futuro de comunidades inteiras.

O futebol de formação é frequentemente visto através do prisma dos resultados, das classificações e da esperança de descobrir futuros talentos. No entanto, a sua verdadeira importância vai muito além disso. O futebol de formação é, acima de tudo, um espaço de aprendizagem humana, social e educativa, uma verdadeira escola de vida.

Nos campos onde crianças e jovens treinam e competem aprendem-se valores que dificilmente se encontram noutros contextos. Aprende-se a respeitar o adversário, a aceitar as decisões do árbitro, a confiar nos colegas de equipa e a reconhecer o papel do treinador. Aprende-se também que o esforço, a disciplina e a persistência são fundamentais para alcançar qualquer objetivo.

Ganhar e perder fazem parte do jogo, mas no futebol de formação o mais importante não é o resultado do fim-de-semana. O mais importante é o processo de crescimento que cada treino e cada jogo proporcionam. O desporto ensina a lidar com frustrações, a superar dificuldades e a compreender que o sucesso se constrói com trabalho e dedicação.

Mas há um princípio essencial que nunca deve ser esquecido: “as crianças precisam de brincar a jogar“. O futebol, nestas idades, deve ser vivido com alegria, criatividade e liberdade. Jogar deve ser, antes de mais, um momento de descoberta, de experimentação e de prazer. Quando se transforma o futebol de formação numa versão antecipada do profissionalismo, corre-se o risco de perder aquilo que é mais importante, o entusiasmo natural das crianças pelo jogo.

Por isso, o papel dos adultos é decisivo. Treinadores, dirigentes e pais devem assumir-se como educadores. Devem criar um ambiente positivo, onde o respeito e os valores estejam sempre acima da pressão pelo resultado. Um treinador de formação não é apenas um técnico; é também um formador de carácter. E os pais, mais do que exigir vitórias, devem ser os primeiros a incentivar o crescimento e o bem-estar dos seus filhos.

Esta realidade ganha ainda maior importância quando olhamos para as regiões do interior do país. Em muitas localidades do Alentejo e de outras zonas afastadas dos grandes centros urbanos, o clube de futebol é muito mais do que uma instituição desportiva. É um ponto de encontro da comunidade, um espaço de convívio entre gerações e, muitas vezes, uma das poucas estruturas capazes de mobilizar jovens e famílias em torno de um projeto comum.

Num país cada vez mais concentrado nas grandes cidades, o desporto pode desempenhar um papel fundamental na “fixação dos jovens no território”. Quando existem clubes ativos, projetos de formação estruturados e oportunidades de participação desportiva, criam-se motivos para que os jovens se mantenham ligados às suas comunidades. O futebol pode ajudar a fortalecer o sentimento de pertença e a criar laços que ultrapassam o próprio jogo.

Portugal não é apenas Lisboa, Porto ou Algarve. Portugal é também o interior. É também o Alentejo, uma terra de história profunda, de cultura resistente e de identidade singular, que durante séculos foi conhecido como o “celeiro da Europa”.

Mas Portugal também vive nos jovens de Bragança, de Miranda do Douro, da Guarda, de Fornos de Algodres, de Viseu, de Castelo Branco, da Covilhã, de Seia, de Oliveira do Hospital, de Mortágua, de Penacova, do Fundão e de tantas outras localidades espalhadas pelo interior do país. Territórios que muitas vezes parecem esquecidos pelo futebol e pelo poder político, mas onde continuam a viver comunidades orgulhosas da sua identidade.

Nestes lugares, o clube de futebol é frequentemente muito mais do que uma instituição desportiva. É um espaço de encontro, de partilha e de pertença. É ali que muitas crianças dão os primeiros pontapés na bola, que fazem amigos para a vida e que aprendem, talvez pela primeira vez, o verdadeiro significado de trabalhar em equipa.

Valorizar o futebol de formação nestas regiões é muito mais do que investir no desporto. É investir nas comunidades, na coesão territorial e no futuro do país. Porque quando se dá aos jovens a oportunidade de crescer, competir e sonhar nas suas próprias terras, está-se também a ajudar a preservar a vida, a identidade e a dignidade destes territórios.

Cuidar do futebol de formação no interior é, no fundo, “cuidar de Portugal”.

Importa lembrar que a maioria das crianças que hoje joga futebol nunca chegará ao futebol profissional. E isso não diminui em nada o valor da experiência desportiva. O verdadeiro sucesso da formação não está em produzir estrelas, mas em formar cidadãos responsáveis, solidários e preparados para enfrentar os desafios da vida.

Quando um jovem aprende a respeitar os outros, a trabalhar em equipa, a aceitar a derrota e a celebrar a vitória com humildade, está a aprender muito mais do que futebol. Está a aprender a viver.

É por isso que o futebol de formação deve continuar a assentar em pilares essenciais: *ética, fair-play, valores, integridade e respeito*. Se estes princípios estiverem presentes em cada treino e em cada jogo, então o desporto estará verdadeiramente a cumprir a sua missão.

Porque, no final, o futebol é muito mais do que um golo, uma vitória ou um troféu.
O futebol é encontro, amizade, desafio, superação e comunidade.
E quando um campo de terra batida numa pequena vila do interior consegue ensinar uma criança a respeitar os outros, a trabalhar em equipa e a acreditar em si própria, então o futebol já cumpriu a sua maior vitória.
Porque, no fundo, “formar pessoas será sempre mais importante do que formar campeões“.

Fernando Mendes

CEO – Globall Football