OPINANDO: O futebol distrital não pode continuar refém de palavras que nada valem
O futebol português, em particular o futebol distrital, continua demasiado preso a pequenos poderes, promessas vazias, compromissos de bastidor e conveniências pessoais que pouco ou nada têm a ver com o verdadeiro desenvolvimento da modalidade.
A carta tornada pública por Paulo Menano, dirigida ao Presidente da Associação de Futebol da Guarda, expõe mais um episódio que envergonha o futebol e ajuda a explicar por que razão tantas pessoas sérias se afastam, desistem ou acabam esmagadas por sistemas fechados, onde a palavra dada parece valer menos do que o cargo ocupado.
Paulo Menano não é um aventureiro do futebol. É alguém com uma vida ligada à modalidade na região, sempre disponível, presente e comprometido com o desenvolvimento do futebol e do futsal distrital. É reconhecido pelo seu percurso, pela sua dedicação e pela disponibilidade permanente para servir.
Segundo o que é hoje do conhecimento público, e de acordo com o que o próprio afirma na sua carta, Paulo Menano abandonou funções na Associação de Futebol da Guarda profundamente desiludido, magoado e traído pelo que considera ter sido o incumprimento de um acordo pré-eleitoral.
E é aqui que começa o problema.
Quando alguém abdica de uma candidatura, de um projeto próprio ou de uma ambição legítima em nome de um acordo político-desportivo, esse acordo deve ser honrado. Não pode servir apenas para ganhar eleições, silenciar adversários, agregar apoios e, depois de conquistado o poder, ser remetido para a gaveta do esquecimento.
Isso não é política desportiva. É chico-espertismo institucional.
Pior ainda quando, segundo é referido, estaria em causa a promessa de um cargo remunerado de Diretor Executivo da Associação, que nunca terá sido concretizado apesar das garantias dadas e dos sucessivos compromissos assumidos. A confirmar-se, estamos perante uma situação grave, moralmente censurável e institucionalmente inaceitável.
Uma Associação de Futebol não pode funcionar como uma coutada privada.
Uma Associação Distrital de Futebol não pertence ao seu presidente, aos seus amigos, aos seus padrinhos ou às alianças construídas nos corredores da Federação. Pertence aos clubes, aos atletas, aos treinadores, aos árbitros, aos dirigentes e a todos aqueles que, muitas vezes sem dinheiro, sem meios e sem reconhecimento, mantêm vivo o futebol nas regiões do interior.
Por isso, este caso merece discussão pública.
Não se trata apenas de uma questão pessoal entre Paulo Menano e a atual liderança da Associação de Futebol da Guarda. Trata-se de um problema maior: a falta de cultura de responsabilidade, transparência e respeito no futebol distrital português.
Durante anos, muitos destes organismos viveram protegidos por um silêncio cúmplice. Todos sabem, todos comentam em privado, todos se queixam nos corredores, mas poucos têm coragem de dizer em público aquilo que precisa de ser dito.
Pois bem: chegou o momento de o dizer.
O futebol distrital não pode continuar nas mãos de quem usa a palavra “união” nos discursos, mas pratica a exclusão nos atos. Não pode continuar dominado por pequenos poderes instalados, que prometem tudo antes das eleições e esquecem tudo no dia seguinte. Não pode continuar a tratar pessoas sérias como peças descartáveis depois de utilizadas.
A carta de Paulo Menano é dura, mas digna.
Não há nela insulto gratuito. Há dor, desilusão e a tristeza de quem sente que foi traído por pessoas e compromissos que julgava poder respeitar. Há, acima de tudo, uma mensagem clara: Paulo Menano abandona este projeto, mas não abandona o futebol distrital.
Essa talvez seja a parte mais importante.
Quem ama verdadeiramente o futebol não precisa de cargos para continuar a servi-lo. Mas quem serve o futebol com seriedade também não pode ser tratado como estorvo, instrumento eleitoral ou moeda de troca descartável.
O futebol da Guarda, como todo o futebol distrital, merece mais.
Merece dirigentes com palavra. Merece instituições sérias. Merece compromissos cumpridos. Merece respeito por quem deu anos da sua vida ao serviço dos clubes, dos jovens, das equipas técnicas e das comunidades.
Merece, sobretudo, uma limpeza profunda de práticas velhas, gastas e tóxicas que continuam a corroer o futebol por dentro.
Não basta falar de formação, ética, desenvolvimento regional e futuro. Tudo isso se torna conversa vazia quando, na prática, se atropelam pessoas, se quebram compromissos e se governa com base em conveniências pessoais ou proximidades federativas.
O futebol distrital está cansado de promessas. Cansado de discursos bonitos. Cansado de dirigentes que confundem cargos com propriedade privada. Cansado de quem se instala, se protege, se promove e abandona à sua sorte aqueles que ajudaram a construir o caminho.
Paulo Menano merecia outro tratamento. O futebol da Guarda merecia outra elevação. E o futebol português merece, há muito tempo, uma varridela séria nestes pequenos feudos onde a falta de transparência, de respeito e de palavra continua a destruir a confiança de quem ainda acredita no desporto.
Porque, quando a palavra deixa de valer, a instituição perde autoridade moral.
E, quando uma instituição perde autoridade moral, já não lidera.
Apenas ocupa espaço.
Paulo Menano pode sair de consciência tranquila. Quem falhou com a palavra é que deve explicações.
O futebol distrital merece verdade, respeito e compromisso. Não merece promessas falsas, jogos de bastidor nem dirigentes que usam pessoas para chegar ao poder.
A Guarda merece melhor. O futebol distrital merece muito melhor.
Fernando Mendes
CEO – Globall Football
