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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: O futuro do futebol e do futsal nos territórios de baixa densidade joga-se muito para além das quatro linhas


O futuro joga-se na capacidade de adaptação, na visão estratégica e, sobretudo, na valorização do papel social que estas modalidades continuam a ter nas comunidades do interior.

Num contexto marcado pelo despovoamento, pelo envelhecimento da população e pela redução do número de praticantes, o modelo tradicional do futebol enfrenta desafios cada vez maiores. Campos sem manutenção regular, escalões de formação incompletos e dificuldades financeiras colocam em causa a continuidade de muitos clubes históricos. É neste cenário que o futsal surge como uma resposta cada vez mais relevante: mais flexível, menos oneroso e melhor ajustado à realidade demográfica destes territórios.

O futuro passará, inevitavelmente, por uma maior articulação entre futebol e futsal. O futsal pode ser a porta de entrada para a prática desportiva, sobretudo nos escalões mais jovens, permitindo desenvolver competências técnicas, criatividade e gosto pelo jogo. Em territórios de baixa densidade, onde reunir 20 ou 30 crianças para uma equipa de futebol de 11 é, por vezes, impossível, o futsal garante continuidade, regularidade competitiva e proximidade.

A formação será um dos pilares decisivos. Mais do que competir por resultados imediatos, os clubes do interior terão de assumir-se como escolas de valores e cidadania. Parcerias com escolas, autarquias e associações locais serão fundamentais para alargar a base de recrutamento, partilhar recursos e criar projetos sustentáveis.

A par disso, assistisse nos dias de hoje,a que ser dirigente não é apenas ajudar ,também é cumprir com as certificações,regulamentos de segurança, licenciamento, processos burocráticos, responsabilidades legais e exigências crescentes na área da saúde,do treino e da gestão.
É de facto um aumento significativo das exigências burocráticas e financeiras. Inscrições, seguros, arbitragem, policiamento, deslocações e manutenção de infraestruturas representam custos incomportáveis para associações que vivem do voluntariado e de pequenos apoios locais. Dirigentes, muitas vezes já envelhecidos, acumulam funções, responsabilidades e desgaste, sem renovação geracional. O amor ao clube continua a existir, mas já não chega para suportar um sistema cada vez mais pesado e distante da realidade do futebol amador.
A inovação também fará a diferença. Modelos como o walking football, o futsal feminino, o futebol de praia ou projetos intermunicipais podem abrir novas oportunidades de participação, envolvendo públicos que tradicionalmente ficaram fora da prática regular. A aposta no desporto feminino, em particular, poderá ser um fator determinante para aumentar o número de praticantes e reforçar a igualdade de oportunidades nos territórios do interior.

O apoio institucional será outro fator-chave. O futuro do futebol e do futsal nos territórios de baixa densidade exige políticas diferenciadas, que tenham em conta as assimetrias territoriais. Apoios financeiros ajustados, redução de custos competitivos, incentivos à formação de treinadores e programas de mobilidade podem ser decisivos para garantir a sobrevivência e o crescimento dos clubes.

É urgente repensar modelos dos quadros competitivos,adaptar regulamentos, reduzir custos, apoiar verdadeiramente o desporto de proximidade e devolver centralidade ao futebol enquanto fenómeno social. Sem isso, o futebol amador continuará a desaparecer de forma silenciosa, deixando territórios ainda mais vazios e comunidades ainda mais frágeis.

Salvar o futebol amador é, no fundo, salvar uma parte essencial do país real — aquele que não aparece nas grandes transmissões, mas que sempre sustentou o jogo desde a formação.

Apesar de todas as dificuldades, o futuro não tem de ser encarado com pessimismo. Pelo contrário, o interior tem mostrado uma capacidade única de reinvenção. Onde há menos gente, há mais proximidade; onde há menos recursos, há mais criatividade; onde há mais dificuldades, há também mais sentido de missão.

O futebol e o futsal continuarão a ser, nos territórios de baixa densidade, muito mais do que modalidades desportivas. Serão instrumentos de coesão social, afirmação identitária e esperança coletiva. O desafio está lançado: transformar a resistência em projeto e garantir que, no interior, o jogo nunca acaba.

Um clube de futebol ou futsal de sucesso é a melhor campanha de marketing que uma vila ou cidade e mesmo a região,pode ter. Quando uma equipa do interior atinge patamares nacionais ,como vimos com o exemplo do Fundão no Futsal ou Tondela no Futebol, ela coloca a região no mapa mental dos investidores e turistas.

​No futuro, o apoio das Câmaras Municipais deve deixar de ser apenas um subsídio anual para passar a ser um contrato-programa de resultados sociais. O clube passa a ser um prestador de serviços de interesse público.

Paulo Menano