OPINANDO: O interior precisa de clubes tanto como precisa de escolas
Quando um clube fecha, uma comunidade perde muito mais do que um campo de futebol.
Ao longo desta série de reflexões falámos do futebol de formação, do papel do desporto escolar e da importância da literacia desportiva na formação de jovens mais conscientes, responsáveis e participativos.
Mas há uma realidade que atravessa todos estes temas e que merece ser dita com clareza: no interior do país, os clubes são tão importantes como as escolas.
Pode parecer uma afirmação exagerada.
Mas quem conhece verdadeiramente o interior sabe que não é.
Nas pequenas vilas e nas aldeias espalhadas pelo país, o clube não é apenas um espaço onde se pratica desporto. É muitas vezes um dos últimos lugares onde a comunidade ainda se encontra.
É ali que os jovens treinam.
É ali que os pais convivem.
É ali que as gerações mais velhas continuam ligadas à vida da terra.
O clube é, muitas vezes, o último ponto de encontro de uma comunidade que luta diariamente contra o isolamento, o envelhecimento populacional e a perda de serviços essenciais.
Quando uma escola fecha numa aldeia, sentimos que uma parte da comunidade desaparece.
Mas quando um clube desaparece, acontece algo semelhante.
Perde-se um espaço de encontro.
Perde-se um espaço de identidade.
Perde-se um lugar onde os jovens aprendem a fazer parte de algo maior do que eles próprios.
Durante décadas, o movimento associativo foi uma das maiores forças silenciosas da sociedade portuguesa. Milhares de dirigentes, treinadores, voluntários e associados construíram clubes, organizaram atividades, mobilizaram comunidades e criaram oportunidades para gerações inteiras de jovens.
Tudo isto quase sempre de forma voluntária.
Sem grandes recursos.
Sem reconhecimento público.
Mas com um enorme sentido de responsabilidade comunitária.
Hoje, esse modelo enfrenta um desafio sério: a renovação geracional.
Muitos clubes sobrevivem graças ao esforço de pessoas que dedicaram grande parte da sua vida ao associativismo. São dirigentes que carregam décadas de trabalho, de dedicação e de sacrifício.
Mas essas gerações começam inevitavelmente a afastar-se.
E a pergunta que muitas comunidades começam a fazer é simples, mas inquietante: quem virá a seguir?
Se os jovens não forem envolvidos, se não forem preparados para compreender o valor destas instituições e se não forem incentivados a participar na sua gestão e dinamização, muitos clubes correm o risco de desaparecer nos próximos anos.
E quando um clube fecha, não desaparece apenas uma instituição.
Desaparece um espaço de pertença.
Desaparece um pedaço da vida coletiva.
Por isso, quando falamos de desporto, não devemos falar apenas de competição ou de resultados. Devemos falar também de comunidade, cidadania e participação.
Trazer os jovens para o associativismo não significa apenas convidá-los a jogar.
Significa convidá-los a participar.
A organizar.
A decidir.
A assumir responsabilidades.
Significa mostrar-lhes que um clube não é apenas um campo ou um pavilhão.
É uma instituição da comunidade.
Os pequenos clubes do interior são autênticos nichos de bem-estar, identidade e ligação às raízes. São lugares onde se aprendem valores que muitas vezes já não se encontram em mais lado nenhum: solidariedade, compromisso, entreajuda e responsabilidade coletiva.
Num tempo em que tantas relações se tornaram virtuais e distantes, estes espaços continuam a oferecer algo profundamente humano: proximidade.
Talvez por isso seja tão importante cuidar deles.
Porque quando uma comunidade perde um clube, perde também uma parte da sua energia, da sua identidade e do seu futuro.
E num país que já enfrenta tantos desafios no interior — despovoamento, envelhecimento, desertificação social — não podemos permitir que desapareçam também os lugares que ainda mantêm viva a ligação entre as pessoas.
A escola forma cidadãos.
Mas o clube ensina-nos a viver em comunidade.
Por isso, proteger os clubes do interior não é apenas uma questão desportiva.
É uma questão de coesão territorial.
É uma questão de participação cívica.
É uma questão de futuro.
Porque, no fundo, uma comunidade que perde os seus clubes está a perder muito mais do que uma equipa.
Está a perder um pedaço de si própria.
E é por isso que, no interior de Portugal, os clubes são tão necessários como as escolas.
“Este artigo integra a série “Educar pelo Desporto”, uma reflexão sobre o papel do desporto na formação dos jovens e no futuro das comunidades do interior de Portugal.”
Fernando Mendes
CEO- Globall Football
