OPINANDO: O Interior também joga – e quer ser ouvido no futebol português
Quando Viseu, Tondela e Coimbra entram na equação, o mapa do futebol nacional começa finalmente a parecer-se com o mapa real do país
Durante demasiado tempo, o mapa do futebol português foi desenhado quase exclusivamente a partir do litoral. As grandes decisões, os maiores investimentos e a atenção mediática concentraram-se num eixo bem conhecido: Lisboa, Porto e a faixa costeira onde se acumulam clubes, infraestruturas e visibilidade.
Mas o país real é mais vasto do que essa linha junto ao mar.
Portugal também é o seu Interior. É feito de cidades médias, vilas e comunidades onde o futebol continua a ser muito mais do que entretenimento televisivo: é identidade local, encontro semanal e, muitas vezes, o primeiro espaço de pertença para milhares de jovens.
Por isso, o cenário que hoje se desenha no distrito de Viseu merece ser olhado com atenção. Se o Académico de Viseu confirmar a subida à Primeira Liga e o CD Tondela conseguir afirmar-se e manter-se nesse patamar, não estaremos apenas perante um episódio desportivo. Estaremos perante um sinal de mudança no equilíbrio territorial do futebol português.
Não se trata de rivalizar com os grandes centros. Trata-se de reconhecer que o futebol nacional ganha quando se torna verdadeiramente nacional.
Viseu representa hoje uma ambição urbana que durante décadas viveu numa espécie de promessa adiada. É uma cidade com massa crítica, tradição desportiva e uma base social que sempre acompanhou o futebol com entusiasmo. A possibilidade de ver um clube da cidade afirmar-se no principal escalão teria um impacto que vai muito além do relvado: turismo, comércio local, restauração e visibilidade mediática são efeitos conhecidos de uma presença consistente na elite.
Tondela, por seu lado, simboliza algo diferente mas igualmente importante. Representa a capacidade de projetos sólidos surgirem longe dos grandes centros urbanos. Num futebol cada vez mais dominado por recursos financeiros e estruturas complexas, a experiência tondelense demonstrou que organização, estabilidade e visão podem compensar limitações de dimensão.
O significado coletivo seria ainda mais profundo. Dois clubes do mesmo distrito na Primeira Liga teriam um efeito simbólico poderoso para todo o Interior. Mostrariam que o talento não está geograficamente concentrado e que o trabalho desenvolvido em regiões frequentemente ignoradas pode gerar resultados de alto nível.
Para o futebol distrital e para a formação de jovens, esse impacto seria imediato. Quando um jovem vê clubes da sua própria região competir na elite, o horizonte muda. O sonho deixa de parecer distante e abstrato; passa a ser próximo, tangível, possível.
Esta é uma dimensão frequentemente esquecida quando se discute o futebol português: o papel das comunidades locais. O futebol profissional vive da exposição mediática e dos grandes contratos televisivos, mas a sua base continua a ser construída nos campos distritais, nos clubes formadores e nas redes de voluntariado que sustentam o desporto em muitas regiões.
É aqui que o Interior continua a desempenhar um papel essencial.
E é também aqui que surge uma outra reflexão inevitável: o papel histórico de Coimbra e da Associação Académica de Coimbra. Durante décadas, a Académica representou um ponto de equilíbrio entre litoral e interior, entre tradição universitária e identidade popular. Mais do que um clube, foi uma instituição cultural do futebol português.
O seu regresso pleno ao protagonismo competitivo não seria apenas uma recuperação desportiva. Seria também o reforço de um eixo geográfico e simbólico importante para o equilíbrio do futebol nacional.
Se Viseu afirma ambição, se Tondela prova que projetos sólidos podem nascer fora dos grandes centros e se Coimbra reencontra a força histórica da Académica, o Interior deixa de ser apenas cenário secundário no futebol português.
Passa a ser parte ativa da sua renovação.
O futebol português precisa de continuar a olhar para o mundo, para os mercados internacionais e para a globalização do jogo. Mas não pode esquecer que a sua força começa dentro de portas, nas comunidades que continuam a formar jogadores, adeptos e dirigentes.
Reconhecer o papel do Interior não é uma questão regionalista.
É simplesmente reconhecer a geografia real do futebol português.
E essa geografia é muito mais ampla do que a linha da costa.
Fernando Mendes
CEO da Globall Football
