OPINANDO: O jogo termina no apito. O medo pode continuar até casa
Há imagens que dispensam grandes explicações. A de um jovem futebolista sentado no banco de trás de um automóvel, de cabeça baixa, depois de um jogo, é uma delas.
A frase que a acompanha é ainda mais dura:
“Há miúdos que não têm medo de perder um jogo. Têm medo da viagem para casa.”
Esta realidade existe. Está presente no futebol profissionalizado, nas grandes academias e, naturalmente, também no futebol amador e de formação do interior. Talvez seja menos visível, mas não é menos grave.
Há crianças que, depois de uma derrota, não entram no carro dos pais à procura de conforto. Entram em silêncio, já a antecipar o interrogatório, a crítica, a comparação com os colegas, a acusação de falta de esforço ou, em alguns casos, a humilhação.
“Porque falhaste aquele passe?”
“Porque não marcaste?”
“Porque é que o treinador te tirou?”
“Assim nunca vais ser jogador.”
Perguntas que muitos adultos consideram normais, mas que, repetidas semana após semana, podem transformar o futebol numa fonte de ansiedade, culpa e medo.
O filho não é um projecto desportivo dos pais
Um dos maiores problemas do futebol de formação é a dificuldade que alguns adultos têm em compreender que o sonho pertence à criança e não aos pais.
É legítimo que uma família acompanhe, incentive e se orgulhe. O que não é legítimo é transformar cada jogo num exame, cada erro numa desilusão familiar e cada derrota numa espécie de fracasso pessoal.
A criança não entra em campo para justificar os quilómetros feitos pelos pais, o dinheiro gasto em equipamentos, as mensalidades pagas ou as expectativas criadas em redor de uma eventual carreira.
Entra para jogar.
Para aprender.
Para conviver.
Para errar.
Para descobrir as suas capacidades e os seus limites.
E, acima de tudo, para crescer num ambiente onde se deve sentir protegida.
O futebol de formação não pode ser uma fábrica de ansiedade alimentada por adultos que projectam nos filhos aquilo que nunca conseguiram alcançar.
O erro faz parte da aprendizagem
Durante um jogo, uma criança vai falhar passes, perder bolas, tomar decisões erradas e desperdiçar oportunidades. Isso não significa falta de talento, de vontade ou de compromisso. Significa apenas que está a aprender.
Não existe formação sem erro.
No entanto, há pais que exigem aos filhos de dez, doze ou catorze anos uma maturidade competitiva que nem muitos jogadores profissionais demonstram. Aplaudem quando tudo corre bem, mas mudam completamente de comportamento quando a equipa perde ou o filho joga abaixo das expectativas.
Esse apoio condicionado ao resultado deixa uma mensagem perigosa:
“Gosto mais de ti quando jogas bem.”
Mesmo que nunca seja dita desta forma, é assim que muitas crianças a sentem.
O apoio verdadeiro não aparece apenas nas vitórias, nos golos ou nas fotografias publicadas nas redes sociais. Revela-se sobretudo nos dias maus, quando o jovem falha, perde, fica no banco ou regressa a casa desiludido.
É nesses momentos que precisa de ouvir:
“Gostei de te ver jogar.”
“Espero que te tenhas divertido.”
“Amanhã haverá outro treino.”
Ou, simplesmente:
“Estou contigo.”
Os clubes também têm responsabilidade
Não basta pedir bom comportamento aos pais através de uma placa colocada à entrada do campo. Os clubes precisam de assumir uma verdadeira função educativa.
É necessário explicar claramente às famílias qual deve ser o seu papel, estabelecer limites, agir perante comportamentos inadequados e criar espaços de formação parental.
Muitos dirigentes e treinadores conhecem perfeitamente os pais que pressionam, insultam, discutem com árbitros, criticam colegas de equipa ou interrogam os filhos depois dos jogos. Ainda assim, demasiadas vezes, opta-se pelo silêncio para evitar conflitos ou porque aquela família paga mensalidades, ajuda o clube ou transporta outros jogadores.
Esse silêncio também tem consequências.
Proteger uma criança significa, por vezes, ter a coragem de chamar um adulto à razão.
Os treinadores, por seu lado, também devem compreender que trabalham com pessoas em desenvolvimento, e não apenas com futuros jogadores. A forma como corrigem, comunicam e gerem a frustração influencia profundamente a relação que cada jovem terá com o futebol.
Um treinador pode ajudar uma criança a recuperar de um erro. Mas também pode fazer com que ela tenha medo de voltar a tentar.
No futebol do interior, formar pessoas é ainda mais importante
Nos clubes do interior, onde quase todos se conhecem e onde as relações entre famílias, dirigentes e treinadores são mais próximas, existe uma oportunidade extraordinária para fazer diferente.
Estes clubes não têm apenas a responsabilidade de organizar equipas e participar em campeonatos. São espaços de educação, integração e pertença. Muitas vezes, representam uma das poucas estruturas comunitárias capazes de acompanhar regularmente crianças e jovens.
Por isso, devem ser também lugares de segurança emocional.
O verdadeiro sucesso de um clube de formação não pode ser medido apenas pelos campeonatos conquistados ou pelos jogadores transferidos para emblemas de maior dimensão.
Mede-se igualmente pelo número de jovens que continuam a gostar de futebol.
Pelos que aprendem a respeitar colegas e adversários.
Pelos que sabem ganhar sem humilhar e perder sem se sentirem diminuídos.
Pelos que, anos mais tarde, recordam o clube com afecto, independentemente de terem ou não seguido uma carreira desportiva.
A viagem para casa deveria ser um lugar seguro
Depois de um jogo, uma criança pode querer falar, ficar em silêncio, ouvir música ou simplesmente olhar pela janela. Os pais não precisam de assumir o papel de treinadores, analistas ou comentadores.
Precisam de continuar a ser pais.
A viagem para casa não deve ser a segunda parte do jogo. Não deve servir para rever cada lance, distribuir culpas ou exigir explicações.
Deve ser o momento em que o jovem percebe que o resultado ficou no campo e que, em casa, continua a ter exactamente o mesmo valor.
Porque uma derrota passa.
Um golo falhado será esquecido.
Uma classificação deixa de ter importância.
Mas a forma como uma criança se sentiu ao lado dos pais pode acompanhá-la durante toda a vida.
O futebol de formação deve criar memórias, amizades e valores. Nunca medo.
Nenhuma criança deveria recear mais a viagem para casa do que o adversário que acabou de enfrentar.
Fernando Mendes
CEO – Globall Football
