OPINANDO: O Mar Não Espera – Crónica de uma Vitória Teimosa
Quem já tentou praticar surf sabe que andar em cima de uma prancha não se aprende à primeira tentativa. Nem à terceira. Talvez nem à centésima. Aquele momento mágico de deslizar sobre uma onda — os segundos que vemos nos vídeos — esconde horas de frustração, quedas e água salgada pelo nariz acima. Mas se a aprendizagem do equilíbrio já filtra os impacientes, o verdadeiro teste de carácter acontece antes: no calvário de chegar ao line-up.
O line-up é o sítio lá fora, depois da rebentação, onde as ondas se formam e onde os surfistas esperam pela sua vez. Para lá chegar, é preciso remar contra a corrente, furar a espuma, levar com a rebentação na cabeça, afundar a prancha uma vez, duas vezes, dez vezes, e continuar a remar. É trabalho pesado, invisível, inglório. E é ali, nesse esforço repetido que ninguém aplaude, que se separam os que desistem dos que um dia vão apanhar ondas.
O Eurico Gonçalves e o Miguel Figueira são surfistas. Conhecem bem este calvário. Mas a maior prova de resiliência das suas vidas não aconteceu no mar. Aconteceu em terra firme, durante dezasseis anos, a remar contra uma rebentação feita de burocracia, inércia e indiferença.
Esta é a história deles. E é também a história de como dois cidadãos, sem poder formal, conseguiram mudar uma política pública que o Estado foi incapaz de resolver durante quase duas décadas.
Para perceber o que está em causa, é preciso recuar a 2010.
A costa portuguesa vive de areia em movimento. O mar transporta sedimentos de norte para sul, numa corrente constante chamada deriva litoral. É este fluxo natural que alimenta as praias, que as mantém vivas. Quando algo interrompe esse fluxo, as praias a jusante começam a definhar.
Em 2010, o molhe norte do porto da Figueira da Foz foi prolongado em vários metros. O objetivo era nobre: melhorar as condições de navegação e a eficiência do porto comercial. Mas a obra teve um efeito colateral devastador. O molhe prolongado passou a funcionar como uma barragem de areia. Os sedimentos que antes fluíam livremente para sul ficaram retidos a norte, acumulando-se junto à estrutura. E as praias a sul — o Cabedelo, a Cova-Gala, a Leirosa — começaram a ser devoradas pelo mar, ano após ano.
Não foi só areia que se perdeu. A entrada na barra tornou-se mais perigosa, e os naufrágios, antes raros, passaram a ser notícia trágica e recorrente. A famosa onda do Cabedelo — um ativo económico e desportivo que atraía surfistas de todo o mundo — foi definhando, metro a metro. Comunidades inteiras passaram a viver de coração nas mãos, temendo que cada inverno trouxesse o mar mais perto das suas casas.
A solução técnica existe e tem nome: bypass. É um sistema de canalização que imita a natureza. A areia acumulada a norte do molhe é aspirada e transportada por um tubo subterrâneo para as praias a sul, onde é depositada. É como desentupir uma artéria: o sangue — neste caso, a areia — volta a circular. O sistema funciona há décadas noutras partes do mundo, como na Austrália. Os estudos técnicos da Universidade de Aveiro confirmaram que é a solução mais eficaz e, ironicamente, a mais barata.
E aqui começa o contraste que envergonha.
De um lado, o Eurico e o Miguel. Dois cidadãos comuns que, em 2010, fundaram o movimento SOS Cabedelo. Não tinham gabinete, não tinham assessores, não tinham orçamento. Tinham conhecimento, convicção e uma teimosia do tamanho do Atlântico.
Viajaram à Austrália, do próprio bolso, para estudar o bypass do rio Tweed. Organizaram conferências e seminários. Escreveram artigos, deram entrevistas, reuniram com autarcas, deputados, ministros. Explicaram o problema uma vez, duas vezes, cem vezes.
Apresentaram dados, estudos, projeções. Provaram, com a força da ciência, que a solução existia, que funcionava, e que era a mais económica.
Do outro lado, o Estado. Dezasseis anos a coçar a cabeça. Dezasseis anos de reuniões, grupos de trabalho, relatórios preliminares e versões provisórias de relatórios preliminares. Dezasseis anos a dizer “estamos a analisar” enquanto o mar avançava. E, de vez em quando, para mostrar serviço, despejavam uns milhões de euros em alimentações artificiais de praia — areia que o mar, com a
pontualidade de um funcionário público, levava no dia seguinte.
Façamos as contas deste absurdo. O bypass custa cerca de 18 milhões de euros a construir. O metro cúbico de areia transposta fica a 1,64 euros — o mais barato de todas as alternativas. Em trinta anos, conserva 110 hectares de território e gera um valor económico entre 229 e 333 milhões de euros. O investimento paga-se entre o sétimo e o décimo ano.
E o que fizemos nós durante dezasseis anos? Gastámos fortunas em soluções de curto prazo que o mar desfazia como um castelo de areia. Pagámos o metro cúbico de areia mais caro, repetidamente, em vez de investir uma vez na solução definitiva. Foi como alugar uma casa durante décadas quando o preço de compra era mais baixo do que a soma das rendas.
Mas o Eurico e o Miguel não desistiram. Dezasseis invernos a ver o mar avançar. Dezasseis primaveras a recomeçar a luta. Dezasseis anos a remar contra a corrente, a furar a espuma da burocracia, a levar com a rebentação da indiferença na cabeça. E nunca largaram a prancha.
Em novembro de 2025, chegaram finalmente ao line-up.
A Assembleia da República aprovou, por consenso, a inclusão do concurso público para o bypass no Orçamento do Estado para 2026.
Dezasseis anos de luta cívica transformados numa linha orçamental. A onda que tanto esperaram está finalmente a formar-se.
O LIVRE orgulha-se de ter sido o partido a apresentar esta proposta. Mas seria desonesto reclamar para nós uma vitória que pertence, antes de mais, ao Eurico, ao Miguel e a todos os cidadãos que durante anos mantiveram esta causa viva. O nosso papel foi simples: ouvir quem sabia, pegar na ciência e transformá-la em decisão política. É o mínimo que se espera de quem faz política — e é espantoso que tenha demorado dezasseis anos a acontecer.
Esta história ensina-nos três coisas.
Primeiro, que a cidadania ativa funciona. Dois cidadãos, armados apenas de conhecimento e persistência, conseguiram o que o aparelho do Estado não conseguiu. Não com gritos, mas com argumentos. Não com indignação vazia, mas com estudo e resiliência.
Segundo, que as decisões políticas devem basear-se em conhecimento técnico e científico. O bypass não é uma opinião. É engenharia. É matemática. É a solução que os especialistas recomendam há mais de uma década. A política não tem de inventar soluções — tem de ter a humildade de ouvir quem as estudou.
Terceiro, que a inércia tem custos. Dezasseis anos de indecisão não foram grátis. Pagámo-los em praias perdidas, em milhões desperdiçados, em vidas em risco. A lentidão do Estado não é neutra. Tem consequências. E quem as paga são os cidadãos.
Mas agora é altura de celebrar.
O mar continua a não esperar. Mas agora, finalmente, nós também não. O concurso vai ser lançado. A obra vai avançar. E daqui a uns anos, quando as praias a sul da Figueira da Foz voltarem a ter a areia que o mar lhes deve, haverá quem se lembre de dois surfistas teimosos que remaram dezasseis anos contra a corrente.
O Eurico e o Miguel chegaram ao line-up. Agora, sim, podem apanhar a onda.
Gustavo Veloso
