OPINANDO: O país forma mais jovens do que nunca, mas o modelo que os forma ainda é o do século passado.
Há uma boa notícia e uma notícia que exige reflexão. A boa notícia: Portugal tem hoje a geração mais qualificada da sua história, com 43% dos jovens entre os 25 e os 34 anos a concluir o ensino superior em 2024, e a taxa de abandono escolar precoce desceu para 6,1% em 2025 – bem abaixo da meta europeia de 9% para 2030, e abaixo de países como a Espanha (13%), a Alemanha (12,9%) ou a Itália (9,8%). A notícia que obriga a pensar: o modelo que forma esses jovens foi pensado para um mundo que deixou de existir.
O ensino superior português conta com 97 instituições – 36 das quais públicas – e registou 456.032 estudantes inscritos no ano letivo 2024/2025. Os números crescem. O acesso democratizou-se. E, no entanto, 13,2% dos novos alunos abandonam o ensino superior logo no primeiro ano. Nos cursos técnicos superiores profissionais, esse valor sobe para 28,1%. Num universo de cerca de quatro mil cursos, há 11 em que todos os alunos matriculados desistiram. Estes dados falam por si: entrar na universidade ficou mais fácil; ficar – e, sobretudo, sair preparado – continua a ser um desafio. Estudos mostram que quanto menos favorecido é o contexto socioeconómico do estudante, maior é a taxa de abandono e maior o risco de desemprego após a formação.
Enquanto o sistema debate reformas internas, o mercado de trabalho já chegou ao futuro. O Fórum Económico Mundial (WEF) estima, no Future of Jobs Report 2025, que 39% das competências nucleares dos trabalhadores serão transformadas ou tornadas obsoletas até 2030, e que a economia global criará 170 milhões de novos empregos – mas eliminará 92 milhões. A Inteligência Artificial (IA), a cibersegurança e a transição energética estão a redesenhar profissões inteiras. O que o mercado mais procura, porém, não são apenas diplomas ou certificações técnicas. Segundo o mesmo relatório, as competências mais valorizadas pelos empregadores para os próximos cinco anos são o pensamento analítico, a resiliência, a liderança e a criatividade – competências que não se ensinam apenas com manuais, que se desenvolvem pela experiência, pelo erro, pelo trabalho em equipa e pela exposição a problemas reais.
Portugal já tem exemplos concretos de como se pode fazer diferente. Em Coimbra, o TUMO – programa nascido na Arménia com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian – recebe 1.500 jovens entre os 12 e os 18 anos para aprenderem programação, robótica, animação e design, de forma inteiramente gratuita, fora do horário escolar, sem exames de admissão. O aluno escolhe o que quer aprender, aprende fazendo, falha e recomeça – exatamente o ciclo que o século XXI exige. Em Lisboa e no Porto, a Escola 42 – fundada em Paris em 2013 pelo empresário Xavier Niel com um donativo de 75 milhões de euros – vai mais longe: sem professores, sem propinas, sem horários obrigatórios, com o campus aberto 24 horas por dia. Os alunos aprendem uns com os outros, num modelo de pares que replica o ambiente das empresas tecnológicas mais inovadoras do mundo, e que já produziu profissionais integrados em empresas de referência em toda a Europa. Nenhum destes modelos pretende substituir a universidade – pretendem, isso sim, obrigá-la a perguntar-se o que está a fazer que eles não fazem.
A ideia de que a formação termina com a entrega do diploma é, hoje, uma ilusão perigosa. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) recomenda que os países invistam em credenciais parciais e em mecanismos de reconhecimento de competências adquiridas ao longo da vida, permitindo que qualquer pessoa, em qualquer momento, retome e atualize a sua formação. Portugal já deu passos nesta direção, com os Centros Qualifica e os mecanismos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC). Mas a aprendizagem ao longo da vida não pode ser apenas uma medida de política pública – tem de se tornar uma cultura, uma atitude, a convicção genuína de que aprender não é uma fase da vida, mas a vida inteira.
Portugal fez um caminho notável nas últimas décadas. Reduziu o abandono escolar para valores que envergonham países mais ricos. Formou engenheiros, médicos, economistas, investigadores. E agora enfrenta um desafio diferente: não é apenas a quantidade de formação que importa – é a sua qualidade, relevância e equidade.
A pergunta já não é “quantos jovens chegam à universidade?”. A pergunta certa é outra: quando saem, estão realmente prontos para o mundo que os espera?
Fontes de informação:
https://gpseducation.oecd.org/CountryProfile?primaryCountry=PRT&treshold=10&topic=EO
https://www.edustat.pt/detalhes-infostat?ID=59
https://eurydice.eacea.ec.europa.eu/pt-pt/eurypedia/portugal/ensino-superior
https://infocursos.medu.pt/
Alunos carenciados têm mais dificuldades no acesso ao trabalho
https://reports.weforum.org/docs/WEF_Future_of_Jobs_2025_Press_Release_PTBR.pdf
https://visao.pt/exame/2023-07-11-escola-42-porto-o-futuro-esta-a-passar-por-aqui/
https://eurydice.eacea.ec.europa.eu/pt-pt/eurypedia/portugal/estrategia-para-aprendizagem-ao-longo-da-vida
Hugo Andrade
