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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: O riso homérico, a política do nosso tempo e o fracasso da educação ocidental


Na Ilíada, canto I, Homero descreve um momento revelador: os deuses do Olimpo caem num riso incontrolável quando Hefesto, coxo e desajeitado, lhes serve o néctar. É o chamado riso homérico — exagerado, coletivo, quase cruel. Não é apenas uma gargalhada; é o riso de quem está acima, de quem observa o ridículo sem correr riscos, de quem domina a ordem do mundo.

Esse riso antigo ajuda-nos a compreender o presente. Mas há um problema sério: já quase ninguém o reconhece. A educação ocidental, que se orgulha de ser herdeira da Grécia, afastou Homero das salas de aula, como se fosse um ornamento dispensável, um luxo inútil. Forma-se gente altamente escolarizada que nunca leu uma linha da Ilíada ou da Odisseia — e, pior, que nem sabe por que isso importa.

Hoje, já não vivemos num Olimpo mitológico, mas o funcionamento do poder global mantém algo de divino no pior sentido. Guerras, crises económicas, fluxos migratórios e colapsos sociais são tratados com uma frieza técnica que envergonha a humanidade — basta observar o desfile de analistas, generais e politólogos nas televisões, discutindo vidas humanas como se fossem meros números numa folha de papel. Fala-se em ‘interesses estratégicos’, ‘danos colaterais’, relatórios impecáveis e outras baboseiras, como se o cálculo pudesse substituir o humanismo. Nesse distanciamento, esconde-se um riso implícito: cínico, impiedoso, tão frio quanto o riso dos deuses que jamais sangram.

A geopolítica contemporânea tornou-se um grande palco. Países mais fracos são pressionados, usados ou sacrificados; conflitos prolongam-se porque são úteis; tudo é justificado como inevitável. Tal como no Olimpo homérico, a ordem mantém-se mesmo à custa da humilhação e da dor alheia. Quem decide observa de cima.

Mas o problema não está apenas no topo. As próprias democracias revelam sinais claros de degeneração em oclocracia, o governo da multidão. Quando a educação deixa de formar pensamento crítico, memória histórica e capacidade de leitura profunda, o espaço público enche-se de ruído. Emoção substitui argumento; indignação instantânea vence a reflexão; a maioria decide, mas decide mal.

Aqui surge um segundo riso homérico: o riso da multidão. Um riso agressivo, que ridiculariza, cancela e destrói. Nas redes sociais, rir do adversário e achincalha-lo tornou-se mais importante do que compreendê-lo. A política transforma-se num espetáculo, onde vence quem provoca mais reações, não quem pensa melhor. É um riso sem alma, sem reflexão e sem elevação — É o triunfo da vulgaridade.

E é aqui que o fracasso da educação ocidental se torna evidente. Ao afastar Homero, afastou-se mais do que um poeta: perdeu-se a noção de
tragédia, de limite, de ironia profunda, de ambiguidade humana. Sem os clássicos, o riso deixa de ser crítico e passa a ser vazio; deixa de revelar e passa apenas a destruir.

O mais preocupante é que os dois risos — o das elites distantes e o da multidão ruidosa — alimentam-se mutuamente. Enquanto o povo se perde em conflitos superficiais, decisões fundamentais são tomadas longe do seu alcance. Há participação aparente, mas o poder real esvazia-se. Sem formação cultural sólida, a democracia tende a ser enxovalhada, por quem a sabe manusear. Isto é, viver em democracia sem conhecimento é ser-se presa fácil.

O riso homérico, em Homero, mostrava que até os deuses tinham algo de grotesco. No nosso tempo, revela algo mais grave: a erosão da responsabilidade política, da educação humanista e do próprio espírito democrático. Rimos demasiado porque desaprendemos a pensar, esquecendo o que Kant nos lembrava: ousar pensar é a verdadeira coragem da liberdade.

É hora de recuperar a seriedade, não a cinzenta, mas a que nasce do conhecimento profundo. Voltar a Homero não é nostalgia: é necessidade. Porque nem todo riso é saudável. Alguns libertam, despertam consciência e crítica; outros, como alertaria Platão, revelam a fragilidade da alma e ecoam apenas o som da decadência social.

Bibliografia

Luc Ferry, A Mitologia Grega de A a Z, Editor: Editora Guerra & Paz, 2026
Homero, Ilíada, Trad. Frederico Lourenço, Editor: Quetzal Editores, 2019
Odisseia, Trad. Frederico Lourenço, Editor: Quetzal Editores, 2018

Carlos M.B. Geraldes, Ph.D.