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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Os fracos sofrem o que têm de sofrer – A frase que devia assombrar-nos ainda hoje


Há momentos na história em que o verniz da civilização estala — e por baixo dele surge algo mais cru, mais antigo, mais incómodo. A pergunta impõe-se: e se a justiça só importasse quando ninguém tem força suficiente para se impor?

No célebre episódio do diálogo entre atenienses e mélios, narrado por Tucídides na sua obra História da Guerra do Peloponeso, somos confrontados com uma das mais desconcertantes exposições da lógica do poder. Ali, não há lugar para ilusões: os atenienses não invocam o justo, não recorrem a princípios universais, nem tentam legitimar-se moralmente. Falam, antes, com a frieza de quem sabe que pode. A sua tese é simples e brutal: quando a diferença de poder é grande, os fortes fazem o que querem e os fracos suportam o que têm de suportar.

Este momento não é apenas um episódio histórico; é um espelho incómodo que atravessa séculos. Nele, o poder deixa de sentir necessidade de se justificar. A retórica não desaparece — mas transforma-se. Já não serve para procurar a verdade ou alcançar o consenso; serve para gerir a submissão, para dar forma aceitável ao inevitável. A linguagem torna-se instrumento, não de esclarecimento, mas de domesticação.

E aqui reside o verdadeiro perigo: quando a força dispensa a razão, a própria ideia de justiça torna-se contingente. Deixa de ser um valor orientador para passar a ser um recurso estratégico, usado apenas quando conveniente. Já não se discute quem tem razão — discute-se quem tem capacidade para transformar o seu interesse em norma.

Este deslizamento é subtil, mas devastador. Porque, quando aceitamos que a justiça só tem lugar entre iguais, abrimos espaço a uma ordem onde a desigualdade legitima a imposição. E, nesse mundo, o direito deixa de proteger — passa a refletir a correlação de forças.

Talvez por isso o texto de Tucídides continue a incomodar tanto. Não porque revele algo desconhecido, mas porque nos obriga a reconhecer algo que preferíamos negar: que, demasiadas vezes, a justiça não é o fundamento do poder — é o seu ornamento. E quando o ornamento deixa de ser necessário, resta apenas a força, nua , crua e sem vergonha.

Carlos M. B. Geraldes Ph.D.

Para quem queira aprofundar: 

Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Tradução David Martelo, 2ª edição, Edições Silabo,2020