OPINANDO: Os Lotófagos – Pastel de Nata e a Política do Esquecimento
Na Odisseia (Canto IX, vv. 82–104), Ulisses e os seus homens chegam à terra dos Lotófagos. Aqueles que provam o lótus perdem o desejo de regressar a casa; esquecem o passado e abandonam qualquer sentido de dever. Ulisses é forçado a arrastá-los de volta aos navios para prosseguir a viagem.
O texto descreve, em essência, um estado de amnésia voluntária — um esquecimento doce e perigoso. Esta imagem ressoa profundamente na política contemporânea.
Em Portugal e no mundo, a sucessão rápida de acontecimentos — escândalos, crises, promessas — cria um ambiente onde a memória coletiva se dissolve. Tal como os companheiros de Ulisses, os cidadãos correm o risco de esquecer compromissos políticos, responsabilidades e lições recentes.
A democracia depende da memória. Sem ela, não há responsabilização. O poder deixa de prestar contas quando o passado deixa de ser relevante.
Os Lotófagos não impõem o esquecimento — oferecem-no. Como o pastel de nata que se come sem pensar, pelo simples prazer do momento, também o esquecimento pode ser doce, familiar e, por isso mesmo, perigoso. E talvez seja isso que torna a metáfora tão atual: numa era de distração constante, o maior risco não é a opressão, mas a indiferença e o pecado da ignorância.
Ulisses reconheceu o perigo e resistiu. Resta saber se, no presente, conseguimos fazer o mesmo.
Bibliografia
Homero., Odisseia, Trad. Frederico Lourenço. Editor: Quetzal Editores, 2018.
Carlos M. B. Geraldes, PhD
