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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: PISA – O espelho que Portugal continua a evitar


Numa escola algures em Portugal, há uma turma que passou meses sem professor de Matemática. Não é ficção, é rotina em milhares de salas de aula portuguesas. E é também, no fundo, a explicação mais honesta para os números que a OCDE acaba de divulgar: menos 12 pontos em Matemática, menos 15 em Leitura, menos 3 em Ciências no PISA 2025, face a um ciclo de 2022 já descrito como o “retrocesso anunciado”.

A tentação, sempre que sai um novo PISA, é discutir a posição no ranking, se caímos dois ou cinco lugares. Esse debate é confortável para manchetes rápidas, mas esconde o que realmente importa. Só 12,9% dos alunos portugueses estudam em escolas sem falta de professores reportada pelos diretores, contra 28,8% na média da OCDE. É esta escassez, mais do que qualquer efeito residual da pandemia, que continua a minar o sistema ano após ano. Não há literacia matemática que resista a meses sem quem a ensine.

Há também um problema mais antigo e mais incómodo: 32% dos alunos portugueses pertencem ao quintil socioeconómico mais favorecido, a maior proporção entre os países comparados pela OCDE. A escola pública, que devia nivelar oportunidades, arrisca tornar-se espelho fiel das desigualdades que devia corrigir. Enquanto discutirmos apenas médias nacionais, continuaremos a ignorar que o problema tem geografia, tem classe social e tem nome.

O dado mais revelador deste ciclo, porém, é outro. Praticamente metade dos estudantes portugueses (48,3%) já usa Inteligência Artificial (IA) semanalmente para estudar, mas menos de 60% recebem qualquer ensino formal sobre como avaliar criticamente esse conteúdo. Estamos a entregar a uma geração inteira uma ferramenta poderosíssima sem lhe darmos o manual de instruções, sem perceber ainda o que isso significará para a forma como aprendem a pensar. É um tema que nenhum currículo nacional deveria adiar mais um ano.

O PISA não é um concurso entre ministérios da Educação, é um diagnóstico clínico. E os diagnósticos só servem quando levam a tratamento. Por isso, a prioridade imediata devia ser simples de enunciar, ainda que difícil de executar: um plano nacional de contratação e fixação de professores nas escolas com maior carência, associado a uma reforma curricular que integre, já no próximo ano letivo, a literacia crítica sobre IA.

Discutir se subimos ou descemos posições no ranking é o exercício mais fácil que a imprensa pode fazer com estes dados. O trabalho verdadeiro só começa quando decidirmos colocar um professor em cada sala, mesmo que isso custe mais do que qualquer debate televisivo sobre o lugar que ocupamos numa tabela internacional.

Hugo Andrade

Fontes de informação consultadas:

Federação Nacional de Educação: https://fne.pt/uploads/documentos//documento_1788866795_9186.pdf

OCDE: https://gpseducation.oecd.org/CountryProfile?primaryCountry=PRT&treshold=10&topic=PI

Público: https://www.publico.pt/2024/02/07/impar/opiniao/teste-pisa-dados-investigacao-2079435