OPINANDO: Portugal, ensino profissional e o preconceito que já não faz sentido
Durante anos, em muitas casas portuguesas, a conversa foi sempre a mesma: “Se queres ter futuro, tens de ir para a universidade.” O ensino superior foi erigido como a autoestrada do sucesso, e tudo o resto ficou etiquetado como vias secundárias. Hoje, com os dados que temos sobre ensino profissional, essa narrativa já não se aguenta. E insistir nela é, no mínimo, injusto para milhares de jovens que encontram neste caminho uma forma séria, digna e eficaz de construir a sua vida.
Não se tratam de impressões vagas. Um policy paper da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) mostra que a expansão dos cursos profissionais, sobretudo a partir de meados dos anos 2000, aproximou Portugal da média europeia em termos de alunos em vias vocacionais e contribuiu para reduzir o abandono escolar e aumentar a conclusão do secundário. Ou seja, quando o país decidiu levar o ensino profissional a sério, os resultados apareceram: menos jovens a sair da escola sem qualificação e mais gente a terminar o 12.º ano com uma certificação útil no mercado de trabalho.
Mas é na empregabilidade que o mito cai por terra de forma mais evidente. Um estudo divulgado pela Fundação José Neves (FJN), citado pela CNN Portugal, indica que os diplomados de cursos profissionais têm, em média, mais facilidade em arranjar emprego do que os colegas do ensino científico-humanístico. Não estamos a falar de “casos inspiradores” isolados, mas de tendências agregadas: mais jovens a trabalhar, em menos tempo, muitas vezes com salários iniciais mais favoráveis. Entretanto, a FFMS confirma que, em determinadas áreas e regiões, a criação de novos cursos profissionais teve impacto positivo — ainda que moderado — no emprego e até na criação de empresas.
Se isto é verdade, por que razão continuamos a tratar o ensino profissional como um plano B? Parte da resposta está no peso cultural das hierarquias académicas. Um artigo recente no Observador descrevia o ensino profissional como “o caminho ignorado para o sucesso”, sublinhando algo que qualquer professor de secundário reconhece: ainda existe a ideia de que os “bons alunos” seguem para a via geral e depois para a universidade, enquanto os outros “vão para profissional”. O problema é que essa divisão, para além de simplista, está desfasada da realidade económica. O país precisa de técnicos — bem formados, atualizados, com literacia digital — tanto quanto precisa de mestres e doutores.
Outro equívoco teimoso é o de que o ensino profissional fecha portas ao ensino superior. As evidências apontam precisamente no sentido oposto. Tanto a FJN como programas públicos como o Pessoas 2030 mostram que uma fatia relevante dos diplomados profissionais prossegue estudos, usando a dupla certificação (escolar e profissional) como trampolim para licenciaturas em áreas tão diversas como tecnologia, educação, gestão ou engenharia. Muitos chegam à universidade com algo que o ensino geral raramente oferece: experiência em contexto real de trabalho, contacto com empresas, noção concreta do que significa cumprir horários, lidar com clientes, operar equipamentos.
Claro que o sistema está longe de perfeito. Uma das conclusões mais incómodas do estudo da FFMS é que muitos diplomados do profissional acabam por trabalhar fora da área específica em que se formaram e fora do concelho onde estudaram. Isto levanta questões sobre planeamento da oferta: estamos a abrir cursos porque há financiamento, ou porque há necessidades reais do tecido económico local e regional? E obriga a reconhecer que, sozinhas, as escolas não conseguem garantir esse alinhamento; precisam de empresas, autarquias e associações setoriais a montar a peça em conjunto.
Mas aqui convém não confundir dois planos. Reconhecer problemas não invalida o mérito da via. Significa, isso sim, que temos de ser mais exigentes com o que chamamos “ensino profissional”: currículos atualizados, professores com experiência real nas áreas que lecionam, estágios que não sejam mão-de-obra barata disfarçada, mas oportunidades formativas com objetivos claros. E, acima de tudo, honestidade sobre os resultados: quando um curso não leva a lado nenhum, deve ser revisto ou encerrado; quando funciona, deve ser divulgado e replicado.
Há também um debate que não podemos continuar a adiar: o da dignidade social do trabalho técnico. Não faz sentido, em 2026, continuar a tratar como “menos” o jovem que escolhe ser técnico de manutenção industrial, profissional de logística, instalador de sistemas energéticos, técnico de saúde ou de tecnologias de informação. Em muitos casos, são estes perfis que mantêm as fábricas a funcionar, asseguram cadeias de abastecimento, garantem a digitalização de serviços e sustentam setores inteiros da economia. Desvalorizar estas escolhas é, no fundo, desvalorizar o país que queremos ter.
Para pais e alunos, talvez a pergunta crucial não seja “universidade ou profissional?”, mas “que combinação de caminhos faz sentido para este jovem, agora, com os seus interesses e circunstâncias?”. Em alguns casos, um curso profissional será o melhor ponto de partida para uma entrada rápida no mercado de trabalho. Noutros, será uma etapa intermédia antes de uma licenciatura. Em todos, merece ser discutido sem condescendência.
Se queremos um Portugal mais justo e mais competitivo, a conclusão impõe-se: não podemos continuar a tratar o ensino profissional como uma alternativa menor. Os dados dizem uma coisa, o preconceito insiste noutra. Entre um e outro, cabe-nos decidir de que lado queremos estar.
https://ffms.pt/pt-pt/estudos/policy-papers/expansao-dos-cursos-profissionais- em-portugal-que-impacto-na-educacao-no-emprego-e-no
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/ensino-profissional-tem-impacto- positivo-modesto-no-emprego-nas-profissoes-especificas-dos-cursos/
https://cnnportugal.iol.pt/educacao/ensino/tem-mais-emprego-e-com- vantagens-salariais-mas-o-preconceito-ainda-penaliza-o-ensino-profissional- menos-de-40-dos-alunos-optam-por-cursos-
profissionais/20230111/63be82080cf2c84d7fc2a39a
https://observador.pt/opiniao/ensino-profissional-o-caminho-ignorado-para-o- sucesso/
https://pessoas2030.gov.pt/2024/09/11/ensino-e-formacao-profissional-um- caminho-para-o-sucesso/
https://pessoas2030.gov.pt/2025/07/18/estudo-mostra-impacto-positivo-dos- cursos-profissionais-na-qualificacao-e-empregabilidade-dos-jovens/
https://cnnportugal.iol.pt/estudo/ffms/maioria-dos-diplomados-do-profissional- sem-emprego-na-area-e-na-regiao-onde-
estudou/20250711/6870c50bd34e3f0baea060ed
https://ffms.pt/sites/default/files/2025-
07/Policy%20Paper_A%20Expans%C3%A3o%20dos%20Cursos%20Profissionais
Hugo Andrade
