OPINANDO: Portugal forma engenheiros, mas perde talento: O paradoxo que pode travar o país
Portugal forma muitos engenheiros. E, ainda assim, falta-nos engenharia. Esta tensão resume bem um país que investe pesadamente na qualificação técnica, mas não consegue transformar esse investimento em capacidade instalada para executar obras, modernizar infraestruturas e aproveitar plenamente os fundos europeus disponíveis.
Os números da formação são claros. Em 2016, cerca de 21% dos diplomados do ensino superior português pertenciam às áreas de engenharia, manufatura e construção, o segundo valor mais elevado da União Europeia (UE), logo a seguir à Alemanha e bem acima da média europeia de 15%. Em 2023, aproximadamente 28,9% dos estudantes do ensino superior em Portugal estavam inscritos em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), novamente acima da média da UE. Em termos quantitativos, Portugal está do lado certo: forma muitos engenheiros e mantém uma forte tradição de ensino técnico.
É quando olhamos para o que acontece depois da graduação que o cenário se complica. Portugal continua entre os países europeus com maior emigração relativa, com uma fatia relevante da população em idade ativa a viver no estrangeiro. Relatórios e reportagens descrevem uma geração de jovens qualificados, incluindo engenheiros, que sai em busca de melhores salários, oportunidades de progressão e um equilíbrio mais favorável entre rendimento e custo de vida. O resultado é que muitos dos engenheiros que o sistema de ensino forma acabam a contribuir para o crescimento de outras economias, enquanto o país que os formou enfrenta dificuldades em preencher vagas técnicas essenciais.
Esta saída de talento colide com um ciclo de investimento sem precedentes. O programa Portugal 2030, acordado com a Comissão Europeia (CE), prevê 23 mil milhões de euros em fundos estruturais até 2027, distribuídos por áreas como inovação, transportes, transição energética e coesão territorial. Em paralelo, outros instrumentos financeiros elevam o volume total de recursos disponíveis para modernizar o país, do setor ferroviário à digitalização dos serviços públicos. Mas fundos, por si, não constroem linhas de comboio nem reforçam redes elétricas: é preciso quem projete, planeie, fiscalize e execute – em suma, engenheiros.
A Ordem dos Engenheiros (OE) tem sublinhado precisamente este ponto. Em intervenções públicas, o bastonário tem defendido que o problema central não é a falta de projetos ou de empresas, mas a escassez de técnicos qualificados face ao volume de trabalho em carteira. Entre as soluções propostas, destacam-se o reforço dos quadros técnicos do Estado, a criação de carreiras públicas de engenharia mais atrativas e políticas ativas de captação de talento, quer da diáspora portuguesa, quer de países com afinidade linguística. Em paralelo, discutem-se medidas fiscais específicas para jovens, concebidas para tornar mais competitiva a permanência em Portugal e reduzir a pressão emigratória.
A Inteligência Artificial (IA) acrescenta uma camada de complexidade, mas também uma oportunidade. Há quem tema que a automação torne desnecessários muitos engenheiros; a evidência atual aponta noutra direção. Estudos indicam que a IA está a automatizar tarefas repetitivas – cálculos de rotina, desenho técnico básico, certas análises de dados – e a aumentar a produtividade das equipas, mas não substitui o núcleo de funções que exigem pensamento crítico, responsabilidade e integração de sistemas complexos. Ao mesmo tempo, empresas em vários setores relatam dificuldades em recrutar profissionais que combinem engenharia com competências em IA e ciência de dados, revelando uma procura crescente por perfis híbridos. Em vez de reduzir a necessidade de engenheiros, a IA está a tornar a profissão mais exigente e, potencialmente, mais estratégica.
Tudo isto converge numa escolha simples de enunciar, mas difícil de concretizar: continuar a ser o país que forma os engenheiros de que outros se aproveitam, ou tornar-se o país que aproveita os engenheiros que forma. A primeira opção prolonga a atual contradição entre uma forte base formativa e uma fraca capacidade de retenção; a segunda exige mexer em salários, carreiras, incentivos fiscais, práticas de gestão e cultura organizacional.
Se Portugal quiser aproveitar plenamente a próxima vaga de investimento e modernização, terá de tratar os engenheiros não como um recurso facilmente substituível, mas como um ativo crítico. Só assim deixaremos de falar de “falta de engenheiros” como destino e passaremos a encará-la pelo que é: uma consequência direta das escolhas que fazemos – ou adiamos – hoje.
Referências consultadas:
https://investporto.pt/en/news/portugal-has-the-second-highest-rate-of-engineering-graduates-in-the-eu/
https://op.europa.eu/webpub/eac/education-and-training-monitor/en/country-reports/portugal.html
https://www.europeandatajournalism.eu/cp_data_news/brain-drain-how-the-exodus-of-talent-is-redefining-the-map-of-europe/
https://www.caixabankresearch.com/en/economics-markets/labour-market-demographics/why-there-lack-workers-portugal
Hugo Andrade
