OPINANDO: Quando o desporto promove destinos – O poder dos pais e clubes na valorização dos territórios
Ao participar no seminário “O Desporto precisa de todos. Como? Sinergias para o Desenvolvimento do Território“,tive a oportunidade de reflectir de que existem muitas formas de turismo ligado ao desporto e vice-versa. Na sua intervenção, a Prof.ª Cláudia Seabra, salientou,a dinâmica das deslocações frequentes, muitas vezes ao fim de semana, realizadas por pais e familiares para acompanhar os atletas na prática desportiva.
E despertou em mim a curiosidade de analisar essas deslocações, como momentos de prática turística. Nessa perspetiva, como é importante que os pais façam um acompanhamento dos filhos no desporto acabando por ser potenciais consumidores de turismo.
O desporto de formação, assume hoje uma dimensão que ultrapassa claramente o campo de jogo. Para além da vertente formativa e competitiva, existe um impacto económico crescente associado à mobilidade das equipas, atletas e, muito particularmente, das famílias. Neste contexto, os pais que acompanham os filhos nas atividades desportivas afirmam-se como um importante segmento de consumidores de turismo.
Sempre que há jogos, torneios, estágios, concentrações ou competições fora da área de residência, as famílias deslocam-se, permanecem no território e consomem serviços locais. Dormidas em alojamentos locais, refeições em restaurantes, visitas a pontos de interesse, compras de produtos regionais e utilização de transportes são exemplos claros do efeito multiplicador que o desporto juvenil gera na economia local.
Não podemos esquecer aqui também as deslocações todos os fins de semana dos pais e famílias no acompanhamento dos filhos ou familiares, para atividades desportivas, quer a nível local, regional e nacional. É um segmento de muitas oportunidades para o crescimento do turismo, principalmente nas regiões de baixa densidade.
Este fenómeno, tem particular relevância para territórios do interior, que encontram nestes eventos uma oportunidade de dinamização económica e promoção territorial. Os pais não são apenas acompanhantes: são visitantes ativos que contribuem diretamente para a sustentabilidade dos eventos e para a valorização dos destinos.
É importante, contudo, que este papel seja acompanhado por uma postura responsável e alinhada com os valores do desporto. Pais presentes, positivos e conscientes reforçam não só o ambiente educativo para os jovens atletas, como também a imagem do território anfitrião.
Assim, o envolvimento dos pais e famílias, no desporto deve ser visto numa dupla dimensão: por um lado, educadores de valores, promovendo fair-play, respeito, integridade e espírito desportivo; por outro, agentes económicos do turismo, cujo comportamento e padrões de consumo têm impacto direto nas comunidades que acolhem os eventos.
Para clubes, associações, municípios e entidades regionais de turismo, reconhecer e valorizar este perfil de visitante é estratégico. Criar experiências de acolhimento, promover produtos locais e estruturar a oferta turística associada aos eventos desportivos pode potenciar significativamente o retorno económico e a fidelização das famílias.
No desporto jovem, ganha o atleta que evolui, ganha o clube que organiza e ganha o território que sabe acolher. Porque hoje, mais do que nunca, onde vai o jovem atleta, vai também uma família — e com ela, uma oportunidade de turismo e desenvolvimento local.
Os clubes desportivos assumem assim um papel estratégico que ultrapassa largamente a vertente competitiva. Cada vez mais, são verdadeiros catalisadores de captação de turistas para os territórios onde estão inseridos, contribuindo de forma direta e indireta para a dinamização económica, promoção territorial e coesão social.
Quando um clube participa em competições regionais ou nacionais, organiza torneios, estágios, competições ou eventos formativos, mobiliza atletas, equipas técnicas, dirigentes, familiares e adeptos. Este fluxo gera procura nos setores da hotelaria, restauração, comércio local e serviços, criando um efeito multiplicador relevante, sobretudo em territórios do interior, onde a atividade turística tende a ser mais sazonal.
Para além do impacto imediato, os clubes funcionam como embaixadores do território. Através da sua presença competitiva, das redes sociais e das parcerias institucionais, promovem a imagem do concelho ou região a públicos que, de outra forma, dificilmente teriam contacto com o destino. Muitas vezes, a primeira visita de um turista ao território acontece por motivos desportivos — e essa experiência pode converter-se em futuras visitas de lazer.
Para potenciar este efeito, é fundamental que exista uma estratégia articulada entre clubes, municípios, entidades de turismo e tecido empresarial. Investir em infraestruturas desportivas qualificadas, criar pacotes integrados de turismo desportivo, valorizar os produtos endógenos e comunicar de forma profissional são passos decisivos para transformar o desporto numa verdadeira alavanca de desenvolvimento territorial.
Em síntese, os clubes não são apenas agentes desportivos — são motores de dinamização turística e económica. Reconhecer e apoiar este papel é investir de forma inteligente no futuro dos territórios, pois os clubes e as famílias são uma força silenciosa da promoção turística.
Paulo Menano
