OPINANDO: Quando o pavilhão enche, o interior ganha
O futsal feminino, a força das bancadas e a magia do desporto que une territórios
Este sábado foi mais um daqueles dias em que o desporto acabou por marcar o ritmo das horas e das emoções.
Durante a tarde, assisti pela televisão ao jogo da Taça de Futsal Feminino entre o UD Os Pinhelenses e o Sport Lisboa e Benfica. Um desses encontros que, independentemente do resultado, mostram como o futebol consegue, mesmo que por momentos, levar o interior ao centro do palco.
Há ali sempre um orgulho especial: o de ver clubes da nossa terra a enfrentarem gigantes do desporto nacional.
Mas o dia não ficou por aí.
Ao final da tarde, fiz-me à estrada até Celorico da Beira para apoiar a nossa equipa, o NDS/Comunilog. E foi nesse pavilhão, entre aplausos, nervos e celebrações, que senti vontade de escrever esta crónica.
Antes de falar de futsal, importa dizê-lo com clareza: o nosso distrito vive hoje um momento particularmente interessante no que diz respeito ao desporto feminino. Há dinâmicas diferentes, em modalidades distintas, todas elas importantes e complementares.
A Escola de Futebol Feminino da Guarda é um bom exemplo desse trabalho de base, estruturante, que cria oportunidades, forma atletas e abre caminhos onde antes eles não existiam. O mesmo se pode dizer por exemplo do Guarda UP que tem equipas femininas, no basquetebol, um projeto consistente, com identidade e uma forte ligação à comunidade.
Dito isto, é no futsal feminino que quero centrar esta crónica.
Tenho tido a felicidade de acompanhar o NDS/Comunilog em vários pavilhões pelo distrito e aquilo a que tenho assistido merece ser sublinhado. Há algo de especial a acontecer: pavilhões cheios, bancadas compostas, intensidade dentro de campo e uma paixão nas bancadas que não se explica apenas pelos resultados.
Ali não está apenas um jogo.
Está uma comunidade inteira reunida.
Em territórios onde tantas vezes “há pouca coisa”, o futsal feminino tem sido muito mais do que competição. Estas atletas dão mais do que golos e vitórias. Dão motivos de conversa durante a semana, dão temas para o café, para a escola, para o trabalho. Dão razões para festejar, para sofrer juntos, para criar pertença.
Dão, acima de tudo, alegria, cor e vida.
O trabalho desenvolvido nestes clubes é também um trabalho profundamente cívico. Forma atletas, sim, mas forma também pessoas. Ensina compromisso, responsabilidade, espírito de equipa e resiliência. E fá-lo, muitas vezes, com poucos meios, muito voluntariado e um enorme amor à camisola.
Ver o futsal feminino crescer desta forma no nosso distrito ajuda-nos a perceber o verdadeiro papel do desporto no interior. Um papel que vai muito além do resultado final. Um papel social, agregador e transformador.
A festa do desporto é isto. Não está apenas nos grandes estádios nem nos horários nobres da televisão. Está nos pavilhões cheios de gente conhecida, nos aplausos espontâneos, nas crianças que olham para o campo e se imaginam ali.
A magia do desporto é isto.
No fim, ganhamos todos. Ganha quem joga, ganha quem apoia, ganham os clubes e ganham os territórios. Porque quando o desporto mobiliza, une e emociona, o interior deixa de ser periferia e passa a ser centro.
E isso, por si só, já é uma grande vitória.
Porque no fim de contas é isto que fica: pavilhões cheios, vozes roucas, emoções partilhadas e a sensação rara de que, por algumas horas, tudo faz sentido. O futsal feminino — e o desporto feminino em geral — não está apenas a ganhar jogos; está a ganhar espaço, respeito e centralidade na vida das nossas terras. E enquanto houver atletas dispostas a dar tudo dentro de campo e comunidades prontas a responder nas bancadas, haverá sempre futuro, alegria e esperança no interior.
Nuno Silva
