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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Quando o sonho acaba cedo demais – O lado esquecido do futebol de formação


Há uma realidade silenciosa no futebol de formação que raramente é discutida com a profundidade que merece.

Muitos jovens entram nos clubes amadores ainda crianças, com 5, 6, 7 ou 8 anos. Crescem de chuteiras nos pés, fazem amizades, aprendem regras, vivem vitórias, derrotas, torneios, viagens, balneários, sacrifícios e sonhos. Durante anos, o clube é quase uma segunda casa. O treinador, os colegas, os dirigentes e os pais fazem parte de uma rotina que marca profundamente a sua identidade.

Mas depois chega a idade sénior.

E é aqui que, para muitos, acontece uma espécie de rutura emocional. De um momento para o outro, aquele jovem que passou anos a representar o clube deixa de ter espaço na equipa principal. Uns porque não têm qualidade suficiente para competir a esse nível. Outros porque há poucas vagas. Outros porque chegam jogadores de fora. Outros, simplesmente, porque o futebol sénior já funciona com outras exigências.

O problema não está apenas em deixar de jogar. O problema está em tudo o que isso representa.

Para muitos jovens, deixar de ter lugar no clube significa perder pertença, perder rotina, perder reconhecimento e, em alguns casos, perder autoestima. Surgem a frustração, a vergonha, a desilusão, a sensação de fracasso. E, infelizmente, também aparecem comentários de amigos, comparações familiares, ironias, críticas e até formas de bullying emocional: “Então, já não jogas?”, “Afinal não deste jogador”, “Tantos anos para nada”, “O teu sonho acabou”.

Mas não. Não foram anos para nada.

Nenhum ano de formação é tempo perdido quando ensina disciplina, compromisso, respeito, espírito de equipa, resiliência e amor ao desporto. O erro está em fazermos estes jovens acreditar que só continuam a ter valor se chegarem à equipa sénior como jogadores.

Os clubes, as famílias e a própria comunidade precisam de olhar para esta transição com mais humanidade. O fim de uma etapa como jogador não deve significar o fim da ligação ao clube. Pelo contrário, pode ser o início de uma nova missão.

Há jovens que podem tornar-se treinadores adjuntos, monitores das camadas jovens, delegados, dirigentes, árbitros, responsáveis pela comunicação, apoio logístico, análise de jogo, organização de eventos, acompanhamento de atletas mais novos ou voluntários em várias áreas do clube. Muitos deles conhecem a casa melhor do que ninguém. Sabem o que é vestir aquela camisola. Sabem o que se sente quando se ganha, quando se perde e quando se fica no banco. Essa experiência tem valor.

Também é importante que os próprios jovens compreendam algo essencial: não chegar ao futebol sénior como jogador não é uma sentença de fracasso. A vida desportiva pode continuar de muitas formas. O futebol não termina quando termina a competição dentro das quatro linhas. Há muitas formas dignas, úteis e bonitas de continuar ligado ao jogo.

Aos clubes, deixo um apelo: criem pontes. Não deixem estes jovens simplesmente desaparecer. Conversem com eles. Expliquem decisões. Ajudem-nos a encontrar outro papel. Criem programas de integração para ex-atletas da formação. Um clube amador não é apenas uma equipa; é uma comunidade.

Às famílias, outro apelo: não transformem a desilusão num peso maior. Um jovem que perde espaço no futebol precisa de apoio, não de comparação. Precisa de escuta, não de julgamento. Precisa que lhe recordem que o seu valor não depende de uma convocatória.

E aos jovens que estão a viver esta fase: não se afastem por vergonha. O clube também pode continuar a ser vosso. Talvez o vosso papel mude, mas isso não significa que a vossa importância tenha acabado. O futebol precisa de bons jogadores, sim, mas também precisa de boas pessoas, bons líderes, bons treinadores, bons dirigentes e bons exemplos.

Há sonhos que não acabam. Apenas mudam de posição em campo.

O verdadeiro sucesso no futebol de formação não deveria ser medido apenas por quantos chegam à equipa sénior, mas também por quantos continuam ligados ao desporto com autoestima, propósito e sentido de pertença.

Porque formar atletas é importante.

Mas formar pessoas é ainda mais.

Fernando Mendes

CEO – Globall Football