OPINANDO: Quando tudo parece Claro, desconfia!
Há dias em que a política portuguesa parece um anúncio mal escrito. Tudo é “claro”, tudo é “simples”, tudo cabe num slogan repetido até à náusea. E depois há André Ventura, que nos vende essa clareza absoluta como se a complexidade do país fosse um defeito e não uma realidade.
Talvez por isso ele se chame, sem grande surpresa, André Claro Ventura. Claro no tom. Claro no ataque. Claro na indignação permanente. Claro na escolha de inimigos. Tudo muito claro… e perigosamente vazio.
O populismo vive desta ilusão confortável. A ilusão de que há respostas fáceis para problemas difíceis. De que basta falar mais alto, apontar o dedo certo e repetir a mesma frase até soar a verdade. Não é coragem política. É simplificação abusiva. E quem simplifica em excesso acaba quase sempre a mentir, mesmo quando acredita na própria mentira.
Pensar dá trabalho. Questionar exige tempo. Ler para além do título cansa. O populismo despreza tudo isso. Prefere frases curtas, emoções longas e soluções instantâneas que nunca chegam a existir.
Quando alguém nos diz que “o sistema está todo podre” mas nunca explica como funcionaria o dia seguinte, não está a propor mudança. Está a vender ressentimento. Quando alguém promete “limpar Portugal” mas foge sistematicamente às perguntas difíceis sobre leis, instituições e limites do poder, não está a ser transparente. Está a ser irresponsável.
Convém dizê-lo com a mesma frontalidade. O socialismo não é a solução para o país. Um Estado pesado, dependente e paternalista não cria riqueza, não fixa talento e não resolve desigualdades estruturais. Já tivemos provas suficientes. Distribuir o que não se cria é apenas gerir a escassez com discursos moralistas.
Mas rejeitar o socialismo não obriga a cair no outro extremo. Não obriga a entregar o país a quem governa por impulso, conflito permanente e desprezo pelas regras do jogo democrático.
Há momentos em que o voto não é um ato de paixão ideológica. É um ato de contenção e contrição. Não é escolher o melhor mundo possível. É evitar o pior cenário plausível.
Por isso, por muito que custe a alguns, há alturas em que um voto seguro é preferível a um salto no escuro. Um voto que não entusiasma, mas que não incendia. Um voto que não promete milagres, mas também não ameaça implodir o pouco que funciona. Um voto feito de olhos abertos, não de punho cerrado.
Um voto ideologicamente desconfortável, politicamente imperfeito e simbolicamente pesado, mas necessário quando a alternativa é entregar o país à irresponsabilidade.
Democracia não é escolher salvadores. É limitar danos.
Se queremos um país melhor, temos de começar por exigir mais de quem fala connosco. Menos slogans. Menos “clareza” artificial. Menos teatro. Mais pensamento crítico. Mais responsabilidade. Mais silêncio quando não se sabe.
O populismo prospera quando deixamos de pensar.
E Portugal não pode dar-se a esse luxo.
Rui Abreu
