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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Quatro forcados, Vale da Mula e uma lição sobre a Raia


Vieram conhecer Almeida e um encerro na Raia. Acabaram por descobrir muito mais: as nossas festas, a nossa gastronomia, as nossas tradições e uma forma muito própria de viver em comunidade. E foram eles que me fizeram olhar novamente para a riqueza que temos diante dos olhos.

Há tradições que conseguimos explicar. Outras, por mais palavras que utilizemos, só se compreendem verdadeiramente quando são vividas.

Os encerros, as capeias e as festas populares da nossa Raia pertencem a essa segunda categoria.

Há poucos dias tive a oportunidade de voltar a perceber isso de uma forma especial.

O meu amigo Benitez, ligado aos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, veio até à Raia acompanhado por mais três grandes guerreiros das velhas gerações dos forcados: o Bacalhau, o André e o Vasco.

Quatro amigos. Quatro homens ligados por histórias, touros, amizade e por aquele sentimento de grupo tão particular que existe entre os forcados.

Rapidamente passaram a ser os meus quatro mosqueteiros.

A meu convite, vieram passar uns dias à Raia e ficaram no meu alojamento local, em Almeida, que também não conheciam.

E a aventura começou precisamente aí.

Porque há uma responsabilidade que todos aqueles que gostam verdadeiramente deste território deveriam assumir mais vezes:

ser embaixadores da nossa terra.

Mostrar aquilo que temos.

Levar os nossos amigos às nossas aldeias.

Sentá-los à nossa mesa.

Dar-lhes a conhecer as nossas tradições.

Apresentar-lhes as nossas pessoas.

E eu tinha uma experiência especial preparada para quatro homens que conhecem tão bem o mundo dos touros:

o encerro de Vale da Mula.

Provavelmente um dos melhores e mais genuínos da nossa região.

Quando quatro forcados descobriram os nossos encerros

Eles conhecem touros.

Conhecem praças.

Conhecem a adrenalina.

Conhecem aquilo que significa ter centenas de quilos pela frente.

Conhecem o medo e a coragem.

E, sobretudo, conhecem aquela confiança absoluta de saber que, quando um homem avança, existem outros atrás dele que nunca o deixarão sozinho.

Mas nunca tinham assistido a um encerro como os nossos.

E foi isso que tornou tudo ainda mais interessante.

Porque uma coisa é conhecer a tauromaquia, os touros, os forcados, as praças e todo o ritual que envolve esse universo.

Outra, completamente diferente, é chegar à Raia e encontrar centenas de pessoas espalhadas pelo campo, tratores, cavalos, carros, motas, famílias, amigos e uma multidão à espera de ver passar os bois.

Depois começa o encerro.

E explicar aquilo a quem nunca viu não é fácil.

Há uma espécie de organização amadora, popular e um pouco anárquica, no melhor sentido da palavra, em que aparentemente tudo pode acontecer, mas em que, no final, todos parecem saber qual é o seu papel.

Uns fecham um caminho.

Outros avançam com os cavalos.

Alguém grita.

Outro manda recuar.

Um trator aparece onde menos se espera.

Os bois mudam de direção.

A multidão movimenta-se.

Há pó, adrenalina, algum improviso, gargalhadas e muita emoção.

E, de alguma forma, tudo funciona.

Eles ficaram fascinados.

E talvez tenha sido o olhar deles que mais me fez pensar.

Porque aqueles quatro homens não eram propriamente desconhecedores do mundo dos touros.

Pelo contrário.

Eram homens ligados às velhas gerações dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira. Homens que conhecem por dentro uma das mais profundas tradições portuguesas ligadas à tauromaquia.

Mesmo assim, olharam para aquele encerro com surpresa e entusiasmo.

Adoraram aquela nossa maravilhosa mistura de organização, improviso e anarquia.

E foi aí que pensei:

se quatro homens que conhecem tão bem este universo ficam fascinados com aquilo que temos, talvez sejamos nós que ainda não percebemos completamente o seu valor.

Da garraiada para a festa

Acabámos os cinco — eu e os meus quatro mosqueteiros, entretanto promovidos a campinos honorários da Raia — por ficar para a garraiada e para a festa.

E ainda bem.

Mas antes disso, há algo que não pode passar em branco: a forma como estes quatro forcados viveram o encerro merece ser valorizada como aquilo que realmente é — uma demonstração de coragem, leitura do campo e espírito de grupo.

Eles não estavam ali como espectadores distantes. Estavam atentos, envolvidos, a perceber cada movimento, cada decisão, cada risco. E, de forma quase instintiva, acabaram por se integrar naquele universo popular como se sempre tivessem feito parte dele. A experiência ganhou outra profundidade precisamente por serem homens habituados a lidar com o touro, mas que souberam respeitar e admirar a forma única como aqui se faz.

E isso diz muito sobre eles.

Porque quem conhece o touro reconhece também o valor de quem o conduz, de quem o enfrenta e de quem o organiza no meio do campo.

E foi bonito ver essa admiração mútua entre mundos que, no fundo, falam a mesma linguagem.

E ainda bem que ficámos para a festa.

Porque compreender um encerro sem ficar para a festa seria conhecer apenas metade da história.

A Raia também é isto.

É malta animada e de bem com a vida.

É música.

É conversa.

É mesa.

É encontrar quem não víamos há meses.

É o emigrante que regressa.

É o filho e o neto da terra que vivem longe e voltam no verão.

É o amigo que aparece.

É a família que se junta.

Durante algumas semanas, as nossas aldeias transformam-se.

Abrem-se casas que estiveram fechadas durante meses.

As ruas voltam a encher-se.

Encontram-se gerações.

Há música, bailes, jantares, procissões, capeias, encerros e reencontros.

A população de algumas localidades multiplica-se.

As aldeias voltam a respirar.

E isto também é território.

Isto também é economia.

Isto também é turismo.

Mas, acima de tudo, isto é comunidade e identidade.

A Capeia e aquilo que só nós temos

No meio de todo este universo existe naturalmente uma tradição maior da nossa região: a Capeia Arraiana.

O forcão, os homens que o enfrentam, a comunidade que se reúne à sua volta e toda a simbologia que acompanha a Capeia constituem um património absolutamente singular.

Mas a Capeia não vive isolada.

À sua volta existe todo um universo que importa preservar: os encerros, os cavalos, o campo, as festas, a gastronomia, a música, as associações e, principalmente, as pessoas.

Temos aqui um património cultural e turístico com um potencial enorme.

E não precisamos de transformar estas tradições num produto artificial para turistas.

Precisamos precisamente do contrário.

Preservar a sua autenticidade e convidar as pessoas a vivê-la.

Uma homenagem a quem faz tudo isto acontecer

E quando falamos das festas da Raia existe uma homenagem que é obrigatória.

Aos voluntários.

Porque é muito fácil chegar quando os bois estão prestes a sair.

É fácil aparecer quando começa o baile.

É fácil sentarmo-nos quando a mesa está posta.

Mas alguém esteve lá antes.

Muito antes.

Por detrás de cada encerro, de cada capeia e de cada festa popular existem homens e mulheres que oferecem horas, dias e muitas vezes semanas das suas vidas.

Associações, comissões de festas, mordomos, coletividades e dezenas de pessoas anónimas.

Tratam de licenças.

Procuram apoios.

Montam estruturas.

Preparam recintos.

Organizam refeições.

Limpam.

Carregam mesas.

Resolvem problemas.

Ouvem críticas.

E, quando todos já foram embora, continuam lá.

Depois, no ano seguinte, fazem tudo novamente.

Sem eles, grande parte daquilo que hoje consideramos tradição simplesmente desapareceria.

Por isso, não basta dizer que gostamos das nossas festas.

Temos de apoiar quem as faz.

Participar.

Ajudar.

Consumir nas festas.

Colaborar com as associações.

Respeitar quem trabalha.

E, de vez em quando, fazer uma coisa muito simples que tantas vezes esquecemos:

dizer obrigado.

Eles são verdadeiros guardiões deste património popular.

No dia seguinte, trocámos os papéis

No dia seguinte foram os meus quatro mosqueteiros que me convidaram para a tourada.

Mas antes ainda me cabia continuar a minha pequena missão de embaixador da Raia.

Levei-os à praia fluvial de Alfaiates.

Depois fomos comer uma boa carne no Zé Daniel.

E isto também me fez pensar.

Promover um território não são apenas campanhas de marketing, vídeos bonitos ou grandes estratégias turísticas.

Às vezes começa numa coisa tão simples como dizer:

“Antes de irmos, quero mostrar-vos mais uma coisa.”

Uma fortaleza em Almeida.

Uma praia fluvial em Alfaiates.

Uma boa mesa.

Um encerro em Vale da Mula.

Uma Capeia.

Uma festa numa aldeia.

Uma conversa com alguém da terra.

É assim que se criam memórias.

E quem regressa a casa com uma boa memória transforma-se, mesmo sem perceber, num embaixador daquele território.

Depois chegou a vez de eles me levarem um pouco mais para dentro do mundo deles.

Fomos à tourada.

E aí, para além do espetáculo, que pessoalmente adoro, fiquei novamente a pensar num grupo de homens que merece uma homenagem muito particular.

Os forcados.

Ser forcado é muito mais do que pegar um touro

Quem olha de fora pode pensar que ser forcado é simplesmente ter coragem para enfrentar um touro.

Não é.

É muito mais profundo.

Há ali grupo, confiança, lealdade, coragem, compromisso, sacrifício, amizade e um enorme sentimento de pertença.

Quando um forcado avança, nunca avança verdadeiramente sozinho.

Um homem vai à frente.

Mas atrás dele estão os outros.

E ele sabe que estarão lá.

Sabe que, se cair, alguém o vai levantar.

Sabe que, se precisar, alguém avançará.

Sabe que o sucesso nunca pertence apenas ao homem que foi à cara do touro.

A pega é de todos.

Talvez seja esta uma das imagens mais poderosas que podemos retirar dos forcados.

Numa sociedade cada vez mais individualista, este sentimento de grupo é cada vez mais raro.

Existem poucos universos onde ainda o encontramos com esta intensidade.

O rugby, para mim, é outro deles.

Dentro do campo pode existir uma enorme dureza. Mas existe um código, respeito, camaradagem e a consciência permanente de que ninguém é verdadeiramente grande sozinho.

Nos forcados encontrei exatamente esse espírito.

E talvez tenha percebido também porque aqueles quatro homens entraram tão facilmente no espírito do nosso encerro e das nossas festas.

Porque, no fundo, falávamos uma linguagem parecida.

A linguagem do grupo.

Da amizade.

Da coragem.

Do campo.

Da tradição.

Da palavra dada.

E da certeza de que ninguém fica para trás.

Homens que carregam um pouco de Portugal aos ombros

Independentemente das discussões que existem — e existirão sempre — em torno da tauromaquia, existe nos forcados um património humano, cultural e identitário que merece ser reconhecido.

Aquelas jaquetas carregam histórias.

Carregam gerações.

Carregam amizades para a vida.

Carregam homens que pegaram antes deles.

E carregam jovens que pegarão depois.

Ser forcado é também alguém que vive e sente o campo e que transporta nos ombros uma parte daquilo que é Portugal.

O Portugal rural.

O Portugal das aldeias e das vilas.

O Portugal das festas populares.

O Portugal das tertúlias.

O Portugal onde a palavra dada ainda significa alguma coisa.

O Portugal onde um homem avança sabendo que os outros avançarão com ele.

E foi bonito perceber como esse mundo encontra tantos pontos de contacto com aquilo que ainda vivemos na nossa Raia.

Temos de ser embaixadores da nossa terra

Talvez esta tenha sido a maior conclusão destes dias.

Recebi quatro amigos.

Ficaram em Almeida.

Levei-os a Vale da Mula.

Descobriram os nossos encerros.

Ficámos para a garraiada e para a festa.

Conheceram Alfaiates.

Sentámo-nos à mesa.

Fomos à tourada.

Falámos de forcados, de touros, de campo, de tradições e de vida.

E pelo caminho houve, acima de tudo, amizade.

Quantas vezes temos amigos de Lisboa, Porto, Coimbra, Espanha ou de qualquer outro ponto do país e nunca os convidámos para assistir a uma Capeia ou acompanhar um encerro?

Quantas vezes viajamos centenas ou milhares de quilómetros à procura de experiências diferentes e não percebemos que temos experiências únicas à nossa porta?

Ser embaixador de um território não exige nenhum cargo.

Começa numa coisa tão simples como dizer:

“Vem comigo. Quero mostrar-te a minha terra.”

Uma lição sobre a Raia

Num mundo cada vez mais global, onde as cidades começam a parecer-se umas com as outras e muitas experiências são reproduzidas em qualquer lugar, a diferença passou a ter um enorme valor.

E nós somos diferentes.

A Capeia é nossa.

O forcão é nosso.

Os encerros são nossos.

Aquela mistura improvável de organização e anarquia é nossa.

As festas das nossas aldeias são nossas.

A gastronomia é nossa.

As paisagens são nossas.

A forma como recebemos quem chega é nossa.

Não devemos ter vergonha dessa diferença nem tentar transformá-la noutra coisa qualquer.

Devemos preservá-la.

Organizá-la melhor onde for necessário.

Garantir naturalmente a segurança e o respeito por todos.

Mas nunca retirar às nossas tradições aquilo que as torna especiais:

a autenticidade e a alma.

Vale da Mula voltou a mostrar-me isso.

No meio de centenas de pessoas, olhando para quatro amigos, homens ligados há muitos anos ao mundo dos forcados, fascinados por uma tradição que nunca tinham vivido daquela maneira, percebi novamente uma coisa muito simples:

às vezes precisamos dos olhos de quem vem de fora para perceber a riqueza daquilo que sempre esteve diante dos nossos.

Por isso, neste verão, quando formos aos encerros, às capeias e às festas das nossas aldeias, façamos também esse exercício.

Levemos alguém connosco.

Mostremos a nossa gastronomia.

Contemos a história do forcão.

Expliquemos a Capeia.

Mostremos Almeida e as nossas aldeias.

Levemo-los às praias fluviais.

Sentemo-nos à mesa.

Apresentemos as nossas pessoas.

E apoiemos aqueles que, voluntariamente, ano após ano fazem tudo isto acontecer.

Se cada um de nós for um pequeno embaixador da Raia, teremos milhares de pessoas a contar ao país aquilo que somos.

Os meus quatro mosqueteiros vieram conhecer um pouco da minha terra.

E, curiosamente, foram eles que me fizeram olhar novamente para ela.

Descobrimos também que os nossos mundos estão muito mais próximos do que parece.

Porque ambos falam de amizade, coragem, tradição, campo, pertença e grupo.

Valores antigos?

Talvez.

Mas cada vez mais necessários.

Porque há territórios que se visitam.

Outros fotografam-se.

A Raia vive-se.

E, acima de tudo, partilha-se.

Um bem haja ao Benitez, ao Bacalhau, ao Vasco e ao André.

Nuno Silva