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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Recebemos o maior cheque da nossa história. Adivinha o que mudou


Há uma data que devias marcar no calendário: 31 de agosto de 2026. Não é feriado, não há fogo de artifício, e é precisamente por isso que devia prestar atenção. Nesse dia termina o Plano de Recuperação e Resiliência, o famoso PRR, mais de vinte e dois mil milhões de euros que a Europa nos entregou com uma instrução simples: transformem o país. Foi a maior injeção de dinheiro da nossa história democrática. E vai acabar da forma mais portuguesa possível: em silêncio, com pressa, e com a esperança de que ninguém faça perguntas.

Eu vou fazer a pergunta. O que é que mudou?

Durante décadas, a resposta para todos os nossos problemas foi sempre a mesma: falta dinheiro. Falta dinheiro para modernizar as empresas, falta dinheiro para qualificar as pessoas, falta dinheiro para digitalizar o Estado. Era um argumento confortável, porque transferia a culpa para fora. Não éramos nós, era o orçamento. Depois veio a pandemia, veio Bruxelas, e veio o cheque. O maior de sempre. De repente, a desculpa evaporou-se. Tínhamos o dinheiro. Tínhamos os planos. Tínhamos os PowerPoints, sobretudo os PowerPoints.

Quatro anos depois, a economia cresce, é verdade. Cresce acima da média europeia, e o Governo repete-o com o orgulho de quem mostra o boletim de notas do filho. Mas há um detalhe que estraga a fotografia de família: a produtividade, essa, mal se mexeu. Continuamos a crescer com mais gente a trabalhar, mais horas, mais turismo, mais serviços de baixo valor acrescentado. Crescemos em quantidade. O PRR existia para mudarmos em qualidade. E a qualidade, ao que parece, ficou retida na alfândega.

Pior do que não transformar é não conseguir gastar. O próprio Governo já admitiu, com a elegância habitual da linguagem técnica, que as verbas não executadas serão canalizadas para outros instrumentos. Traduzo: deram-nos dinheiro a fundo perdido e nós conseguimos a proeza de não saber o que fazer com parte dele. É como ganhar o Euromilhões e devolver uma fatia ao balcão porque o multibanco tinha fila.

E atenção, isto não é um problema de falta de necessidades. O país tem hospitais com listas de espera, escolas a pedir equipamentos, milhares de pequenas empresas que ainda gerem o negócio numa folha de Excel de 2009, quando gerem. As necessidades existem, gritam todos os dias. O que falhou foi outra coisa, mais profunda e mais incómoda: a capacidade de executar. Concursos que demoram, autarquias sem técnicos qualificados, ministérios que despacham para o lado, empresas que desistem de tanta burocracias. O PRR não foi um teste à nossa pobreza. Foi um teste à nossa competência. E o resultado do exame chega a 31 de agosto.

Há quem diga que estou a ser injusto, que muita coisa foi feita, que há obras, há casas prometidas. É verdade, e convém dizê-lo: o PRR não foi um fracasso total, e quem o pintar assim está a fazer caricatura. Mas a fasquia nunca foi essa. A fasquia era transformação estrutural. Era sairmos do outro lado como um país diferente, mais produtivo, mais digital, menos dependente de salários baixos para ser competitivo. Gastar dinheiro qualquer um gasta. Transformar é outra conversa. E a diferença entre as duas coisas é precisamente o que vamos discutir, ou evitar discutir, nos próximos meses.

Porque a parte mais inquietante não é o que aconteceu até aqui. É o que vem a seguir. A partir de agosto, a torneira fecha. O investimento público que estava pendurado no PRR perde o suporte, e a economia vai ter de provar que consegue andar sem as rodinhas. Se nestes anos não construímos capacidade própria, se não mudámos a forma como as empresas produzem e o Estado funciona, então o PRR não foi um plano de recuperação. Foi um analgésico caro. E os analgésicos têm um problema conhecido: quando o efeito passa, a dor continua lá. Intacta.

A boa notícia, porque há sempre uma, é que a competência não se compra em Bruxelas, constrói-se cá. Não precisa de envelope europeu nem de cerimónia de assinatura. Precisa de Estado que decida a tempo, de empresas que invistam em tecnologia e em pessoas, e de um país que deixe de tratar cada fundo europeu como um prémio de lotaria e comece a tratá-lo como aquilo que é: uma ferramenta. As ferramentas não fazem o trabalho sozinhas. Nunca fizeram.

A 31 de agosto acaba o dinheiro. A pergunta que fica é se acaba também a desculpa. Porque a partir do dia 1 de setembro, quando alguém disser que o problema de Portugal é a falta de meios, vai haver vinte e dois mil milhões de razões para não acreditar.

Rui Abreu