OPINANDO: Sem Pessoas Não Há Futuro – O Desafio das Associações e dos Clubes
As associações e os clubes desportivos são muito mais do que espaços dedicados à prática desportiva, cultural ou recreativa. São escolas de cidadania, locais de encontro, de partilha e de construção de valores. São espaços onde se aprende o respeito, a disciplina, a solidariedade e o espírito de equipa, contribuindo diariamente para a formação de melhores cidadãos e de comunidades mais fortes.
Ao longo de décadas, o movimento associativo tem desempenhado um papel fundamental junto das populações, chegando muitas vezes onde nem o Estado nem outras instituições conseguem chegar com a mesma proximidade. São milhares de dirigentes, treinadores, voluntários e colaboradores que, de forma generosa e quase sempre anónima, dedicam o seu tempo para criar oportunidades para crianças, jovens e adultos.
Nos territórios do interior e de baixa densidade populacional, esta realidade assume uma importância ainda maior. Os clubes e as associações são verdadeiros motores de desenvolvimento local, promovendo os territórios, dinamizando a economia, preservando tradições e reforçando o sentimento de pertença das comunidades. Cada evento, cada competição e cada atividade organizada representa uma oportunidade para mostrar o que de melhor existe nestas terras e para gerar movimento social, económico e humano.
Mas existe hoje um desafio que ameaça o futuro do associativismo e dos próprios territórios: a falta de pessoas.
O despovoamento que afeta grande parte do interior do país faz-se sentir cada vez mais na vida dos clubes e das associações. Há menos crianças para praticar desporto, menos jovens para dar continuidade aos projetos e menos pessoas disponíveis para assumir responsabilidades.
O envelhecimento da população e a saída constante dos mais jovens para os grandes centros urbanos colocam em causa a renovação das estruturas associativas e a continuidade de muitas instituições.
A situação torna-se ainda mais preocupante quando olhamos para a falta de dirigentes associativos. Cada vez é mais difícil encontrar quem esteja disponível para assumir funções exigentes, que implicam responsabilidade, dedicação e inúmeras horas de trabalho voluntário. São homens e mulheres que, movidos apenas pelo amor à sua terra, ao seu clube e à sua comunidade, continuam a garantir que as portas permanecem abertas e que os projetos continuam a existir.
Contudo, este trabalho continua sem o reconhecimento que merece. Há muitos anos que o movimento associativo aguarda a concretização de um verdadeiro Estatuto do Dirigente Associativo Benévolo, capaz de valorizar, proteger e incentivar aqueles que prestam um serviço inestimável à sociedade.
A ausência dessa resposta é também um sinal preocupante para quem pondera assumir responsabilidades no futuro.
Porque a realidade é simples: sem dirigentes não há associações. Sem associações não há clubes. E sem clubes perde-se muito mais do que a prática desportiva ou cultural. Perdem-se espaços de encontro, de inclusão, de educação e de identidade coletiva.
Perdem-se oportunidades para fixar pessoas, criar comunidade e manter vivos os territórios.
Muitas vezes, os clubes são uma das últimas estruturas que resistem à desertificação humana. São eles que continuam a reunir gerações diferentes, a criar memórias, a alimentar sonhos e a manter viva a esperança de um futuro melhor. São verdadeiros embaixadores dos territórios e guardiões da sua identidade.
Por isso, valorizar o associativismo não é apenas apoiar o desporto, a cultura ou o voluntariado. É investir nas pessoas. É defender a coesão territorial. É criar condições para que os nossos territórios continuem a ter vida, dinamismo e futuro.
Porque a verdade é tão simples quanto preocupante: sem pessoas não há associações, sem associações não há comunidades e sem comunidades não há futuro.
O maior desafio dos clubes e dos territórios não é apenas, muitas das vezes, a falta de infraestruturas,nem de projetos. É, cada vez mais, a falta de pessoas. E essa é uma causa que deve mobilizar todos.
Neste contexto, torna-se igualmente fundamental que os municípios continuem a assumir um papel ativo na criação de políticas que promovam a fixação de pessoas nos territórios.
O apoio ao associativismo, ao desporto, à cultura, à habitação, ao emprego e à qualidade de vida não pode ser visto como uma despesa, mas sim como um investimento estratégico no futuro das comunidades. Sem população ativa, sem jovens e sem famílias, torna-se cada vez mais difícil garantir a sustentabilidade dos clubes, das associações e de todas as estruturas que dão vida aos nossos concelhos.
Fixar pessoas é hoje uma das maiores prioridades dos territórios do interior e uma condição essencial para preservar a sua identidade, a sua dinâmica social e a sua capacidade de crescimento.
Por isso, apoiar o associativismo, valorizar os dirigentes benévolos e criar políticas eficazes de atração e fixação de população deve ser uma responsabilidade partilhada entre o Estado, os municípios e toda a sociedade.
Só assim será possível garantir que os nossos territórios continuem vivos, capazes de oferecer oportunidades às novas gerações e de construir um futuro com esperança.
Paulo Menano
