OPINANDO: Temos os políticos que merecemos
A política é um elo polarizador de massas, alvo de discussões familiares e desavenças. No entanto cada vez mais nos afastamos da mesma.
Todos nós já ouvimos as seguintes frases: “Os políticos são todos iguais”, “Só vai para a política quem quer tacho”, “Só vai para a política quem não sabe fazer nada”, entre outras.
Talvez tenha ouvido estas palavras centenas de vezes, proferidas por familiares ou conhecidos, homens ou mulheres, jovens ou adultos, com mais ou menos habilitações. E é por isso que temos os políticos e as políticas que merecemos, e não aqueles e aquelas de que necessitamos para reverter o estado a que chegámos.
Numa época em que as nossas vidas atravessam ritmos cada vez mais acelerados, marcados pela necessidade de satisfação imediata, e em que o tempo político é medido em gostos e partilhas, proliferam os vídeos do TikTok e as palavras “arrasar”, “humilhar” ou outras com o mesmo tipo de conotação de derrota severa, escritas em maiúsculas, em vídeos e publicações para que possam tornar-se mais apelativas ao público. Proliferam também as fake news, mas sobretudo duas coisas que me irritam solenemente: a demagogia e o populismo. Neles propagam-se as apologias dos medos e das generalizações, fatores que degradam fortemente a política, o diálogo e o consenso, impedindo o reformismo que Portugal tanto necessita.
Ambas representam o que de pior existe na política: as meias-verdades, a manipulação das fragilidades e das emoções e as palavras e propostas convenientes para captar determinadas faixas do eleitorado. No entanto, continuamos a acreditar em tudo isto, porque queremos pensar que as coisas se resolvem facilmente, e por isso nenhum dos políticos demagogos e populistas quer assumir as dores de uma reforma profunda do status quo.
No entanto, o tempo da realidade e o tempo da política divergem, não porque esta não o queira, mas porque um processo legislativo e de decisão política deve ter determinados cuidados para que possa ser coerente com o impacto em questão e ter segurança legal. Necessita por isso de auscultação e, sobretudo, no final de contas, de uma coisa essencial: um voto maioritário, proveniente do consenso e das cedências entre as partes, por um futuro melhor.
E é aqui que começam a demagogia e o populismo, propagadores de falsas expectativas e que têm como resultado uma classe política descredibilizada e a navegar ao sabor do vento, porque, no final de contas, as partes têm de se comprometer com pontos com os quais não concordam tanto para que algo possa avançar em termos políticos que resolvam determinados problemas identificados.
Necessitamos, então, de literacia política como de pão para a boca. Plataformas como a Analisa.pt, a EuVoto.pt e a Mypolis.eu, entre outras dezenas têm tido um papel fundamental na evolução da compreensão da complexidade da política e de tudo o que esta envolve: o que é proposto, como foi votado, entre outros aspetos, trazendo a política para mais próximo dos jovens e da população em geral. Estas plataformas surgiram e vão surgindo para descodificar o mundo da política e demonstrar o que esta pode alcançar no nosso dia-a-dia e qual o impacto.
No entanto, isto não é suficiente para que a cultura política mude. Cada um, em sua casa, deve olhar para a política não como um meio para si próprio, mas como um fim comum, através do qual podemos procurar garantir que a população obtenha melhores condições de vida, maiores perspetivas de elevador social e, no final de tudo, uma vida condigna e justa. É por isso que a escolha de entrar na política se torna complexa.
Por isso, tratar a política e os políticos com a negatividade e a leveza que têm sido praticadas nos dias de hoje apenas traz uma série de resultados negativos, tais como o afastamento de bons quadros da vida política, não só devido à perda salarial face aos valores praticados no privado, mas também ao escrutínio desproporcional da vida privada – e ninguém, na sua vida, se pode declarar um santo. Por mera curiosidade gostaria de saber se todos os leitores pedem fatura em todas as suas compras ou utilizam os seus contactos pessoais para facilitar alguma situação. Tais questões podem ser consideradas como economia paralela e corrupção de pequena escala, que multiplicada pela população portuguesa talvez represente umas largas centenas ou milhares de milhões de euros, aquelas questões que tantas vezes apontamos ao poder político, mas que nunca o fazemos quando nos toca a nós.
Ao mesmo tempo, assiste-se à aproximação daqueles que apenas pretendem obter vantagens com as suas posições políticas e que nada mais sabem fazer, acabando num carreirismo político com base no cartão partidário, descredibilizando a política e desincentivando aqueles que poderiam temporariamente ceder parte do seu tempo em favor da causa pública.
A política por isso é, e continuará a ser, a mais nobre das artes: a de servir o povo. Mas, para isso, é preciso que o povo seja simultaneamente fiscalizador das atividades dos seus eleitos, mas também justo para com a disponibilidade que muitos cidadãos, como eu, retiram das suas vidas pessoais e profissionais em favor do bem comum.
Essa pode ser a diferença entre ter os políticos que temos e os políticos que necessitamos.
Hernâni Marques

