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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Tenho 24 anos e recuso-me a partir: Deem-nos as chaves, nós fazemos o resto


Fizeram-nos acreditar que o interior é uma sala de espera de onde se deve sair o mais depressa possível. Eu não quero sair. E não sou caso único.

No início deste mês, um estudo do Conselho da Europa confirmou em números o que eu já sentia, visto que quase 80% dos jovens rurais querem ficar nas suas terras. Eu sou uma dessas estatísticas, com nome e rosto. Queremos contrariar o despovoamento. Queremos investir aqui o nosso talento, a nossa energia e os nossos diplomas. A vontade existe. O que nos falta, demasiadas vezes, é um lugar para a concretizar.

Aceitámos o desafio de procurar emprego por cá. Lidamos com transportes precários e com as distâncias. Mas esbarramos num muro de silêncio quando queremos criar. Passeio pelas ruas da vila e o contraste é frustrante, vejo jovens cheios de ideias, há quem queira formar uma banda, montar teatro amador, criar um coletivo de arte ou simplesmente ter um espaço para debater, enquanto antigas escolas primárias ganham pó, armazéns municipais permanecem fechados a cadeado e edifícios históricos apodrecem lentamente.

É um desperdício imperdoável.

Não precisamos de discursos paternalistas a chamar-nos “o futuro da região”. Precisamos de apoio real à criação. Precisamos que as autarquias percebam que investir na juventude não é gastar o orçamento num grande concerto, na festa anual de agosto. Investir em nós é dar-nos as ferramentas para sermos protagonistas da nossa cultura todos os dias do ano.

Por que não entregar a gestão dos espaços abandonados a quem tem energia para os recuperar?

Dêem-nos as antigas escolas para servirem de estúdios de ensaio para as bandas de garagem, deixem-nos transformar armazéns vazios em espaços de coworking criativo, galerias ou pontos de encontro. Apoiem as nossas associações para que possamos programar atividades regulares durante os fins de semana de inverno, que hoje são demasiadas vezes um deserto.

A cultura e a criação não são luxos das grandes cidades, são infraestruturas básicas de sobrevivência e de pertença. São a argamassa que constrói “comunidade” e que nos dá raízes. Uma vila que cheira a tinta fresca de um mural pintado por nós, ou que ecoa ao som de uma banda local a ensaiar num edifício antes abandonado, é uma vila onde vale a pena ficar.

A minha geração já levantou a mão. O estudo prova-o, quase 80% de nós quer construir a vida aqui. Parem de nos tratar como quem está de passagem. Destranquem as portas, entreguem-nos as chaves e confiem em nós. Nós faremos o resto.