Mais Beiras Informação

Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: The Rock em Gouveia e a Importância do Foco – Quando os Territórios Optam por Estratégias que Criam Valor Real


O debate sobre o papel das incubadoras no desenvolvimento económico local tem ganho relevância em Portugal, sobretudo à medida que municípios e instituições procuram respostas para a transformação dos seus territórios num contexto de crescente digitalização. No meio deste panorama, marcado por modelos generalistas e por uma dispersão compreensível — mas nem sempre eficaz — de esforços, o The Rock (therock.pt) surge como uma experiência singular que importa analisar.

Ao focar-se exclusivamente na cibersegurança e nas empresas de base tecnológica, o The Rock escolhe um caminho que exige coragem política e visão estratégica: o caminho da especialização. E fá-lo numa altura em que muitos municípios continuam reféns da pressão local para apoiar “todas as ideias”, mesmo quando isso compromete a eficácia das suas políticas de inovação.

A armadilha da proximidade: quando apoiar tudo significa, na prática, não apoiar nada

Os municípios portugueses desempenham um papel fundamental na dinamização económica dos seus territórios. Contudo, a proximidade que caracteriza o poder local pode transformar-se num obstáculo quando existe a expectativa — explícita ou implícita — de que as incubadoras municipais sejam espaços de apoio transversal, capazes de acolher desde o artesanato à construção civil, passando pela tecnologia, pela logística ou pela economia social.

Este modelo generalista parte de uma intenção louvável: apoiar os cidadãos, incentivar o empreendedorismo e diversificar a economia. Mas tem um problema estrutural difícil de contornar: ninguém consegue ser especialista em tudo. E quando uma incubadora tenta responder a setores radicalmente diferentes entre si, o resultado é inevitavelmente um apoio superficial, uma rede de contactos demasiado difusa e uma mentoria que não acompanha a complexidade técnica das áreas mais exigentes.

Em setores altamente especializados — como a cibersegurança, onde se cruzam riscos críticos, regulamentação rigorosa, exigências de certificação e necessidades tecnológicas de ponta — a generalização deixa de ser solução para se tornar parte do problema.

O The Rock como contraponto estratégico

É neste contexto que o The Rock em Gouveia assume um posicionamento distinto, quase contra-cíclico: em vez de abraçar o generalismo, afunila; em vez de dispersar, concentra; em vez de apoiar todos os setores, apoia um com profundidade.

Esta decisão não apenas desafia as expectativas tradicionais sobre o papel das incubadoras locais, como demonstra que a especialização pode, na verdade, ser o caminho mais eficaz para gerar impacto económico real e duradouro.

O The Rock trabalha com aquilo que conhece e domina: empresas de cibersegurança e de base tecnológica. E, ao fazê-lo, consegue oferecer:

  • mentores com experiência de elite no setor,
  • uma comunidade empresarial com sinergias reais,
  • acesso a investimento especializado,
  • capacitação alinhada com as exigências globais da área,
  • projetos que nascem já orientados para mercados internacionais.

É uma abordagem que se afasta do “apoio por simpatia” e se aproxima do “apoio por estratégia”.

O impacto económico silencioso — mas profundo — da tecnologia Existe, por vezes, a perceção de que o empreendedorismo tecnológico não tem expressão local comparável a indústrias tradicionais que moldaram a identidade dos territórios. No caso da região onde se insere o The Rock, os lanifícios são parte da história económica, social e cultural; os teares definiram gerações, criaram emprego e marcaram a paisagem urbana e industrial.

É evidente que nenhuma startup — por mais escalável que seja — substituirá esse legado nem replicará o impacto visual, sonoro ou humano de uma fábrica têxtil em plena laboração. No entanto, a tecnologia opera de forma diferente: menos visível, mas potencialmente mais transformadora.

A título de curiosidade, e como sinal claro do potencial deste setor, algumas das empresas incubadas no The Rock em Gouveia , tanto presencialmente como em regime virtual, já geram volumes de negócios na ordem dos milhões de euros. Este resultado é particularmente relevante quando comparado com o ecossistema de muitas incubadoras generalistas, onde a maioria dos projetos, apesar de meritórios, se mantém limitada às dinâmicas internas do município.

A tecnologia tem uma vantagem decisiva: é exportável por natureza. Um produto de cibersegurança português pode ser adotado por uma empresa na Alemanha, nos Estados Unidos ou na Ásia sem que a equipa deixe de viver, trabalhar e pagar impostos no concelho onde nasceu.

Assim, mesmo que o impacto físico não seja comparável ao dos antigos lanifícios, o impacto económico pode — e provavelmente será — superior a médio prazo. Basta visão, consistência e paciência.

A importância de não governar para o imediato

Uma incubadora especializada não é um luxo; é uma estratégia. Mas é, também, uma estratégia que exige que os municípios resistam à tentação de governar apenas para o curto prazo. Os resultados de um ecossistema tecnológico não se medem em meses, mas em ciclos de três, cinco ou dez anos.

Projetos como o The Rock mostram que, quando existe uma aposta clara, coerente e sustentada, as sementes acabam por germinar. Empresas de alto valor acrescentado instalam-se no território, empregam quadros qualificados, atraem investimento e, com o tempo, geram um efeito multiplicador que escapa à lógica imediatista.

É um modelo diferente dos teares que produziam impacto imediato e visível. Mas, tal como eles, requer consistencia e perseverança.

Conclusão: especialização como visão de futuro

O The Rock representa um exemplo raro em Portugal: o de uma incubadora que escolhe deliberadamente o foco como estratégia e que, ao fazê-lo, demonstra que é possível construir um ecossistema robusto mesmo em territórios distantes dos grandes centros urbanos.

Num momento em que o país procura reposicionar-se em setores de alto valor, a experiência do The Rock oferece uma lição importante: um território que deixa de ser refém da pressão local e assume uma estratégia especializada está a investir não apenas no presente, mas no seu futuro económico.

E, se houver paciência — e coragem — os resultados acabam sempre por surgir.

Nuno Silva